nota: “ROMA”, de Alfonso Cuarón

Captura de Tela 2018-12-17 às 17.42.07

De início, um início que se prolonga por quase toda a primeira hora do filme, o artificialismo das imagens gera desconfiança e a beleza dos cuidadosos planos e enquadramentos se sobrepõe a qualquer possível encanto que a homenagem ao neorrealismo italiano poderia oferecer. É o próprio diretor e roteirista do filme, Cuarón, que, pela primeira vez na sua carreira, dirige também a Fotografia. Se, por um lado, essa onipresença diretiva harmoniza a ideia da obra imaginada com a estética que a realiza, por outro, aciona a tentação do preciosismo imagético.

É então que um acontecimento, enfim, dispara o drama. E esse drama, sensível, discreto e profundo, é o de Cleo. Desde o início a sua imagem protagoniza o filme. Mas só depois é que a sua presença se torna realmente dramática.

Cleo, saída de um vilarejo rural, é empregada doméstica de uma família mexicana de classe média do DF. O tema é o do abandono: homens abandonam as mulheres, a própria família, o filme (a narrativa de Cuarón é autobiográfica). As mulheres sofrem, mas vivem e enfrentam seus dramas, assumem seus respectivos cotidianos: por fora, rotinas e responsabilidades práticas; por dentro, toda a sensibilidade do mundo.

O drama de Cleo se dá em paralelo ao processo de abandono e separação conjugal de sua “patroa”. Mas desta, o filme, embora a mostre quase tanto quanto mostra Cleo, não nos permite uma aproximação. É Cleo, em seu murmúrio, sua escassez de palavras, sua contida vontade de alegria e desejo que transborda aqui e ali, sua inocência que se perde, sua dor e sua culpa, sua amizade… é Cleo que se comunica conosco, que nos dá a ver vislumbres de seu mundo, que nos revela o seu afastamento de “nós” ao mesmo tempo que nos afirma que não há nenhuma distância entre a sensibilidade essencial de mulheres ou homens separados por barreiras de classes, ou modos de pensar, ou pelo vendaval da história. Cleo atesta a sua igualdade a partir de sua abissal diferença.

E o filme de Cuarón nos conquista. Emociona. Impacta. Sua estética se transforma sutilmente, visita elementos poéticos (como o incêndio), fortemente dramáticos (como o homem violento que mata simbolicamente a filha prestes a nascer), e narrativos, como o vínculo que germina entre as mulheres tão distantes entre si, tão próximas num momento de tensão. Um momento único em que Cleo revela diretamente um sentimento seu, na praia, cercada pelas crianças que ela ajuda a cuidar e cujas vidas ela acabara de salvar. Na cena, um singelo heroísmo, num instante, dá lugar ao desabafo trágico, ao sentimento culminante que revela Cleo como a protagonista, êxito do roteiro, mais discreta, profunda e simples.

A “ROMA” da Cidade do México (bairro nobre do DF que empresta o nome ao filme) implica em outros contornos em relação àquela Roma do neorrealismo. E Cuarón, dirimindo ao longo do filme o esplendor visual sem nunca abrir mão da beleza, realiza um filme fundamentalmente latinoamericano, mas que se situa nas brechas que conectam diferentes mundos, nos níveis individuais e sociais. Diferenças de mundos que se mostram ficcionais assim que um encontro real entre duas pessoas, as duas mulheres, se verifica por conta das exigências da vida.

Pequena analogia entre “Museu” (2018) e “Gueros” (2014), filmes de Alonso Ruizpalacios

Se em “Gueros”, o debute do diretor (em longas), a Cidade do México estrutura a Poética do filme, em “Museo”, a geografia é expandida e a história do passado do país, desde antes da Conquista, se cruza com o presente da trama, através de um jogo de desvios de significações: a história do povo maia e seus artefatos, subtraídos de suas tumbas e templos, são confinados ao Museu de antropologia; enquanto a história moderna, o “processo civilizatório”, saem das escolas e academias para retornar às paisagens de ruínas de uma civilização dizimada.

museo09

Gael García Bernal, em “Museo”

Em “Gueros”, jovens de uma geração deslocada das grandes lutas políticas de seu tempo perambulam pelas ruas da Cidade do México em busca, talvez, de suas próprias identidades; em “Museo”, jovens perambulam pelo México, de Yucatán a Acapulco, em busca de um sentido para as suas vidas insignificantes.

Em “Gueros”, mitificavam e foram atrás de Epigmenio Cruz, um roqueiro mexicano obscuro, desconhecido e prestes a morrer, mas que teria feito “Bob Dylan chorar”. Em “Museo”, é Sherazada o mito a ser buscado. Ambos os mitos pessoas decadentes, mais imaginárias do que reais. Ambos os mitos não dão a mínima.

gueros-berline-film-review

Os jovens de “Gueros”

Ruizpalacios infiltra aspectos sociais, económicos, políticos e históricos em seus filmes. Sabe filmar imprimindo um ritmo dinâmico e inventivo, com simplicidade narrativa e sensibilidade crítica. Se incorre em “cacoetes de festival” aqui e ali, isso não compromete em nada a poética de seus filmes.

Aliás, esses cacoetes emprestam aos filmes uma atmosfera que mistura o pop, o comercial e o kitsch com uma boa dose de reflexão sobre a morte, a vida e a arte nisso tudo. Boa combinação.

Em tempo, gosto mais de “Gueros”. E o desfecho de “Museo” não está a altura do filme que nos conduziu até ali…

Cinematógrafo de setembro (sáb, 29) exibe “Doze Homens e uma Sentença”, de Sidney Lumet

O clássico de 1957 põe em questão a relação entre os valores que orientam o nosso ideário civilizacional e as questões sociais de fundo moral, político e psicológico. Sessão dia 29/9, às 16h30, na Saladerte — Cinema do Museu.

Card setembro

Nota dos curadores: “Doze homens e uma sentença” (1957)

O que chamamos modernidade coincide, sintomaticamente, com a era das ideologias. No tempo das ideologias “é preciso decidir-se sobre o assassinato”, como refletiu Albert Camus. Não sobre o assassinato passional, individual. Mas sobre o assassinato institucionalizado, estatal, legal. Se matar passa a ter razões, inclusive razões de estado, é preciso assumir as consequências e buscar responder claramente à questão sobre o fundamento dessas razões, pois todos nós tomamos parte nela.

Em “Doze Homens e uma Sentença” (1957), o primeiro filme do profícuo diretor estadunidense Sidney Lumet, doze homens são convocados pelo Tribunal do Júri para decidir o destino de um jovem de dezoito anos, acusado de um crime hediondo: matar o próprio pai. Há uma regra básica para o veredito: os doze homens devem determinar, por unanimidade, se o jovem é culpado ou inocente. Em caso de dúvidas ou discordância entre eles, prevalecerá a presunção de inocência. Logo no início, o juiz adverte sobre a enorme responsabilidade que os jurados estão assumindo, lembrando a gravidade da pena a ser aplicada no caso de condenação: a pena de morte.

Para muito além da questão jurídica institucional que se instala à primeira vista, “Doze Homens e uma Sentença”, originalmente uma peça feita para a televisão escrita por Reginald Rose e dirigida por Franklin Schaffner (foi ao ar em 1954 nos EUA), põe em questão a relação entre os valores que orientam o nosso ideário civilizacional e as questões sociais de fundo moral, político e psicológico que atuam no nível individual e no das interações humanas. O que está em jogo quando se tem a responsabilidade de julgar o valor da vida do outro, respaldado pelo manto da legalidade e pela reivindicação de valores humanistas? No filme, amparados no discurso da responsabilidade cidadã, os jurados substanciam seus julgamentos, de forma consciente ou não, de boa vontade ou não, a partir de seus próprios preconceitos, interesses pessoais e até traumas individuais, que emergem de um substrato social e cultural carregado de racismo, xenofobia e moralismo. Cabe ao jurado 8, interpretado soberbamente por Henry Fonda, pôr em questão as certezas impensadas que resultam de automatismos apressados, e trazer para o primeiro plano a responsabilidade da reflexão para a tomada de decisões vitais em nome da sociedade.

Uma outra frente de discussão pode ser, paralelamente, acionada pelo filme: em tempos do que Tom Zé chamou de “Tribunal do Facebook”, o filme de 1957 pode ser visto em modo de analogia com a era dos ambientes digitais e os frequentes ímpetos de denuncismo, moralismo e embates políticos polarizados que grassam nas redes sociais, e que não raro descambam para dinâmicas acusatórias, de linguagem punitivista e, no limite, para linchamentos virtuais com consequências e proporções devastadoras para a vida de pessoas acusadas e lançadas ao escracho público sem qualquer possibilidade de defesa. Em casos assim, pela própria tendência amplificadora das redes sociais, inexiste qualquer parâmetro ou marco para se verificar sequer a veracidade das acusações. Esse tema se liga àquele da era das ideologias em que a razão política se converte, em certos contextos, em um esforço discursivo de negação do outro.

No âmbito propriamente cinematográfico, considerando especialmente os seus aspectos formais e dramáticos, “Doze Homens e uma Sentença” motiva boas discussões: o filme se passa quase que inteiramente no interior de uma sala e valoriza enfaticamente a performance dos atores e os diálogos entre os personagens. Estilisticamente, Lumet — sempre próximo do realismo — recorre a artifícios como o posicionamento orientado da câmera e de enquadramentos bem delimitados, para causar sensações de claustrofobia, proximidade ou distanciamento, segundo a progressão narrativa. O diretor, que realizou mais de 50 filmes ao longo de sua carreira, é considerado um grande retratista de Nova York e um dos últimos moralistas de Hollywood, cuja obra se debruça sobre temas relacionados às questões éticas e da integridade dos personagens.

“Doze Homens e uma Sentença” é um clássico, um caso raro de primeiro filme de um diretor que se torna obra-prima celebrada por críticos e cinéfilos. O filme foi indicado a três Oscars (Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Roteiro), além de ter ganhado o Leão de Ouro no Festival de Berlim, em 1957. A sua atualidade, entretanto, é incontornável.

12 Angry Men, Estados Unidos, Drama, 1957, 96 minutos. PB. Direção: Sidney Lumet.

Por fabricio ramos e camele queiroz, curadores

“Quarto Camarim” participa da Mostra TRANSdocumenta em São Paulo

Mostra de cinema, promovida pelo Pacto Global da ONU, acontece em julho, em São Paulo. A sessão de Quarto Camarim será no dia 8, no Museu da Imagem e do Som – MIS.

Poster Quarto CamarimA Rede Brasil do Pacto Global da ONU e a Assessoria Especial para Assuntos Internacionais (AEAI) do governo de São Paulo promovem neste mês e em julho o festival de cinema TRANSdocumenta. A sessão de Quarto Camarim será no Museu da Imagem e do Som (MIS) e será seguida de um “painel sobre pessoas trans no mundo da arte”.

A TRANSdocumenta vai exibir oito filmes de longa e curta-metragem, nacionais e estrangeiros, que abordam o tema da transexualidade. A iniciativa também promoverá atividades culturais, mesas-redondas, pocket shows e a feira de empreendedores LGBTI+, que acontece no encerramento do festival.

A Mostra é parte da agenda “O Mundo Que Queremos”, uma parceria do Pacto Global e da AEAI para comemorar, ao longo de 2018, os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, ratificada por todos os países-membros da ONU em 10 de dezembro de 1948.

Mais informações no site nacoesunidas.org

 

Cinematógrafo na Saladearte de junho exibe Serras da Desordem. Confira a nota dos curadores sobre o filme

[Salvador] O Cinematógrafo de junho (sáb, 30/6, às 16h30, no Cinema do Museu) exibe Serras da Desordem, de Andrea Tonacci. “Há no filme uma proposta de olhar que a ficção não controla, mas que perturba também o pacto documental. – Confira a nota dos curadores do Cinematógrafo:

Cinematógrafo SERRAS JUNHO

Dos curadores, Fabricio Ramos e Camele Queiroz:

Em Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci, a recorrente imagem do trem sempre em movimento que se impõe na tela, além de remeter à mítica imagem do nascimento do próprio cinema, simboliza o progresso tecnológico e o avanço civilizatório. Se o filme traduz, nas palavras do crítico Daniel Caetano, a “violência do olhar civilizatório” que “através da metáfora do trem em movimento”, dá conta “da construção de um país através de suas imagens”, a obra de Tonacci, que já ocupa um lugar de destaque na cinematografia brasileira, ultrapassa a sua própria metáfora para assumir contornos mais profundos em relação ao seu tema e ao próprio lugar do cinema.

Em sua narrativa, Serras da Desordem nos apresenta a odisseia de Carapiru, índio Awà Guajá que sobreviveu ao massacre de sua tribo por pistoleiros e perambulou pelos sertões do norte e nordeste do país por cerca de dez anos, até ser reintegrado ao que restou de seu grupo, por meio da intervenção estatal. Em sua forma, o filme oscila entre o estilo documental e a ficção, levando ao limite essa indefinição. Tonacci conta que o filme “encena uma história real”. De fato, Carapiru atua no papel de si mesmo, encenando a sua própria história, contada pelo diretor. Inicialmente pensado como um filme de ficção cuja história — a da errância de Carapiru — reverberaria um sentimento de perda vivido por Tonacci, o filme transborda para uma zona de incerteza e de risco que confunde o espectador em seu esforço de situar o filme em um gênero ou de estabelecer um pacto seguro com o que vê na tela: estamos diante de uma ficção ou um documentário? Trata-se de um registro de uma situação real ou de uma encenação? Nem mesmo o suporte ou os procedimentos formais garantem um terreno estável: Serras oscila entre imagens digitais e em película, em cores e em preto e branco, além de alternar entrevistas, encenações, imagens de arquivo e trechos de reportagens televisivas.

560full-serras-da-desordem-screenshot

Não obstante toda a incerteza formal e estética de um cinema de risco, inevitavelmente associamos a temática do filme ao drama secular da questão indígena, marcada por uma história de incompreensão, exclusão e genocídio, e por uma relação, como diria Viveiros de Castro, de “desencontro cosmológico” entre nós e eles, sendo que esse “eles” é tudo o que é “não-ocidental, não-moderno, não-humano”.

Mas Serras vai além quando nos oferece uma experiência cinematográfica que nos convoca, para além do tema mais evidente e da forma provocativa, à uma reflexão existencial e, no sentido amplo, “espiritual”, capaz de fazer com que nós nos vejamos refletidos na tragédia individual de Carapiru, contemplando uma imagem de nós mesmos, embora sem nos reconhecer nela, porque Carapiru encarna a imagem do “o outro” absoluto cuja fala sequer entendemos. Porém, de alguma forma, ele participa de nossa própria história como um homem do século XXI que reúne em si mesmo uma sensível síntese histórica e individual de nosso tempo indescritível, de nossa modernidade que o cinema de Tonacci, a um só tempo, expressa e contesta.

Vem da própria trajetória de Tonacci como um cineasta singular essa manifesta consciência do desencontro cosmológico entre índios e brancos na história do Brasil. O diretor, que se foi há menos de dois anos (ele morreu em dezembro de 2016, aos 72 anos), é considerado um dos principais nomes do chamado “cinema marginal” (movimento melhor designado por Jairo Ferreira como Cinema de invenção). Em 1966, dirigiu Olho por Olho, e atuou como fotógrafo de Documentário, ficção de Rogério Sganzerla, ambos curtas metragens. Dirigiu BláBláBlá, de 1968, e Bang-Bang, de 1971, entre outras ficções, e mais tarde se voltou para o método documental, aproximando-se, inclusive, de um uma experiência um tanto etnográfica, quando filmou os índios Canela em Conversas no Maranhão (1977); e Arara, em Os Arara (1983).

Tal trajetória se mostra fundamental para a motivação e determinante para as escolhas que levaram o diretor a realizar Serras da Desordem. Com base em sua experiência, que vincula o cinema à sua própria vida, é que Tonacci transfigura o desencontro cosmológico entre ele e o índio em um encontro entre dois indivíduos, marcado por “um processo de reconhecimento — ou desconhecimento — do outro, de mútua e imediata interferência de um no outro”, como ele declara em entrevista a Daniel Caetano, referindo-se à sua vivência com os índios Canela do Maranhão. Nesse sentido, Serras da Desordem imbrica o nós e o eles e complexifica essa relação por si só problemática, em meio a uma história nossa de “progresso” e destruição que já não ameaça somente Carapiru (que incorpora o eles), mas a nós mesmos que, através do filme de Tonacci, nos apropriamos de sua história para pensarmos, a partir da condição geral do índio, a nossa própria condição moderna.

15542166_10209960644464987_8243717195717289298_n

O diretor Andrea Tonacci (com a câmera) revela o próprio aparato cinematográfico no filme

Enfim, trata-se de um filme sobre o qual muito já se disse, embora nunca o suficiente, e que descortina uma miríade de questões, sejam políticas e propriamente cinematográficas, sejam mais amplamente ligadas às nossas ideias sobre a vida e o mundo, nossa história, nossas conquistas e nossas tragédias.

Serras da Desordem, portanto, não se resume numa mera crítica histórica, social ou política que se apoia na odisseia de um indivíduo emblemático — um índio: o próprio Tonacci reafirma a sua intenção, não de revelar algo sobre Carapiru, nem tampouco de restituir alguma verdade ou delegar a voz ao outro excluído (coisa que efetivamente ele não faz), mas de oferecer ao expectador uma experiência lacunar, a fim de “permitir um mergulho nesse escuro, nesse desconhecimento” que são os índios para nós, “uma outra humanidade”, como uma fala no próprio filme expressa.

Para introduzir, quem sabe, a conversa que tradicionalmente se segue a sessão do Cinematógrafo, reproduzo uma reflexão de Daniel Caetano, crítico citado anteriormente e que organizou o livro “Serras da Desordem”, publicado pela azougue editorial, infelizmente esgotado. A reflexão de Caetano retoma, a partir de Serras, o tema do espírito da modernidade e da “violência do olhar civilizatório”, que abriu esse texto:

A aparição de Andrea Tonacci ao final do filme — assumindo seu papel como mediador dessa narrativa sobre a trajetória de Carapiru, o índio desterritorializado (…) — gera uma crise revitalizadora ao questionar o espaço deste filme na relação entre um homem que teve sua forma de vida atacada e a civilização que primeiro colonizou seu espaço e posteriormente se apropriou de sua imagem e de sua história para poder refletir sobre si mesma. (Daniel Caetano)

A força dramática de Serras da Desordem reside, inescapavelmente, no fato de Carapiru ser um índio. Mas o fascínio que o filme desperta se liga à sua dimensão de obra única: há no filme uma proposta de olhar que a ficção não controla, mas que perturba também o pacto documental. Um cinema de risco, como já dito, que reflete a própria trajetória criativa de Andrea Tonacci, marcada por qualquer coisa marginal, desafiante das dicotomias propriamente modernas. Trajetória que o situa, entretanto, para muito além das margens: em Serras da Desordem, Andrea Tonacci inventa um cinema, realiza um autêntico cinema de invenção.

— Por Fabricio Ramos e Camele Queiroz, curadores

 

 

“Serras da Desordem” passa no Cinematógrafo de junho, que acontece na Saladearte — Cinema do Museu (no Corredor da Vitória, em Salvador), no sábado (30/6), às 16h30. O Cinematógrafo acontece lá mensalmente, sempre no último sábado do mês, exibindo filmes de formas e temas diversificados. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida.

Localização:

Cinematógrafo na Saladearte de maio (sáb, 26/5) apresenta “A última vez que vi Macau”. Leia a nota dos curadores sobre o filme

Por meio de imagens documentais, o filme produz o efeito mágico de um cinema ficcional clássico, intensificado pelas imagens carregadas de mistério. A última vez que vi Macau passa no Cinematógrafo de maio, que acontece na Saladearte – Cinema do Museu (no Corredor da Vitória, em Salvador), no sábado (26/5), às 16h30. – Dos curadores Fabricio Ramos e Camele Queiroz

Captura de Tela 2018-05-18 às 09.08.22

Se o Oriente é uma invenção ocidental que marca com o selo do exotismo todos os mundos a leste da Europa, os cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata, sem incorrer em citações, passeiam pela mistura de estranhamento e intimidade, de mistério e de domínio, que refletem os vínculos profundos entre colonizadores e colonizados que a expansão colonial portuguesa produziu, inclusive, no próprio diretor Guerra da Mata, que viveu parte de sua vida em Macau.

Em A última vez que vi Macau (Portugal, 2012), o próprio cineasta Guerra da Mata, cuja voz conduz a narração do filme, recebe em Portugal uma carta de Macau, enviada por sua amiga Candy, cujas primeiras palavras são: ‘quando leres esta carta eu talvez já esteja morta’. O cineasta, que encarna o personagem que nunca veremos em cena, parte para Macau à procura de Candy na esperança de salvá-la de um perigo de morte insondável, misterioso. O filme começa, aliás, mostrando Candy (Cindy Scrash) cantando You Kill Me (I’m sure that my love will survive/ Because you kill me and keep me so alive). Candy é travesti e vive em Macau há muito tempo, vinda também de Portugal. A carta desesperada que ela enviou ao amigo desencadeia a trama, uma trama contrariada permanentemente pelo estilo documental que revela – da perspectiva da memória de um português – uma Macau em transformação, ocidentalizando-se ao mesmo tempo em que se esquece aos poucos dos mais de quatrocentos anos de colonização portuguesa, cujos traços resistem em nomes de ruas e edifícios, mas se esvanecem nos mistérios e exotismos que tornam a cidade irreconhecível para o próprio Guerra da Mata, ou para o seu personagem que nunca vemos, apenas ouvimos.

A última vez que vi Macau passa pelo tema da representação do Oriente no cinema (a canção que Candy interpreta na abertura vem de Macao (1952), filme de Josef von Sternberg que Nicholas Ray terminou), e se apoia, essencialmente, no tema do imaginário colonizador em tempos pós-coloniais. Mas o filme ultrapassa esses temas sem prescindir de suas funções narrativas. De acordo com a apresentação do filme, a trama de A última vez que vi Macau constrói-se “num plano de contaminação entre as memórias e fantasias de infância de João Rui Guerra da Mata”, que viveu em Macau, “e a procura documental dos vestígios de uma presença nesse território”, acabando por cruzar histórias pessoais dos dois realizadores. Segundo a Academia Portuguesa de Cinema, A última vez que vi Macau é “um filme misterioso, exuberante, que atravessa as fronteiras do cinema e devolve-nos a intimidade da narração”. O filme participou, inclusive, de festivais dedicados ao cinema documental, como o Doc Lisboa.

Insinuando, talvez, certa influência de Chris Marker, o filme, entretanto, elabora uma trama fabular que alguns comentadores classificaram como tributária dos filmes noir, carregada de conspirações, perseguições e assassinato. A fábula, entretanto, nunca foi tão contrariada pelo próprio registro documental que as imagens claramente transmitem. De fato, os cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata partiram para Macau com o objetivo de realizar um documentário e no meio do processo resolveram “redirecioná-lo rumo à ficção, por meio de um narrador cujas impressões emprestam às imagens um novo sentido”, como pontua Filipe Furtado na Cinética.

A última vez que vi Macau, portanto, antes (ou além) de um documentário, é uma experiência de cinema que reflete certa tendência e desejo dos cineastas de, por meio de imagens documentais, produzir o efeito mágico de um cinema ficcional clássico, efeito intensificado pelas imagens carregadas de mistério e estranhamento que sintetizam, ainda que a isso não se reduza o filme, o olhar distanciado e ao mesmo tempo entranhado do colonizador que já não se reconhece em Macau, nem reconhece Macau.

O filme passa no Cinematógrafo de maio, que acontece na Saladearte – Cinema do Museu (no Corredor da Vitória, em Salvador), no sábado (26/5), às 16h30. O Cinematógrafo acontece lá mensalmente, sempre no último sábado do mês. A curadoria é dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e as sessões são sempre seguidas de uma boa conversa aberta e diversificada, sobre o filme, mas também sobre as relações do cinema com a arte e a vida.

Localização:

Filmes inéditos no Brasil inauguram “Sessão Double Bill” no Circuito de Cinema Saladearte

Um só ingresso vai permitir ao cinéfilo de Salvador ver “O Diabo Provavelmente”, de Robert Bresson, e “Norwegian Wood”, de Tran Anh Hung; duas obras nunca antes exibidas no circuito comercial brasileiro.

doublebill

O conceito é bem simples e atrativo: pagar um ingresso e ver dois filmes. Criadas nos EUA, na década de 1940, as chamadas sessões “Double Bill” já fazem parte da trajetória e do imaginário cinéfilo ao redor do Mundo. E agora é a vez de Salvador experimentar essa “dobradinha” cinematográfica. Sob a curadoria dos cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz e do crítico de cinema Adolfo Gomes, começa no dia 27 de maio, às 10h, na Saladearte Cinema da Ufba, a versão baiana das tradicionais exibições duplas. E as primeiras atrações são dois filmes inéditos nos cinemas comerciais brasileiros: “O Diabo Provavelmente” (1977), de Robert Bresson, e “Norwegian Wood” (2010), de Tran Anh Hung.

Bate-papo

Mas o que diferencia a “Double Bill” de Salvador das demais? É que não vai ter só a exibição das obras. Organizadores da mostra “Cinematógrafo”, também realizada no Circuito Saladearte (só que no Cinema do Museu), Fabricio e Camele realizam mensalmente sessões seguidas de um bate-papo com o público. A ideia é dar continuidade a essa dinâmica abrindo um diálogo, não só com os espectadores, mas também entre os filmes. Assim, um breve comentário vai preceder a projeção de cada filme e um debate informal, ao término das sessões, pretende analisar e ampliar as relações entre as obras. Para a dupla de cineastas, a sessão Double Bill os anima por uma dupla razão: “por ousar propor uma relação entre dois filmes muito diferentes entre si, e também por possibilitar a troca entre público, cineastas e crítica, esta muito bem representada por Adolfo Gomes, dono de um olhar muito próprio sobre os filmes e de um notável conhecimento sobre cinema. A nossa expectativa é a de promovermos juntos conversas e reflexões sobre as relações do cinema com questões da vida e da arte”.

Para isso, cada “Double Bill” vai ter um tema. A abertura da programação, que pretende ser bimensal, gira em torno da proposição: “Vida provisória: a juventude nos filmes de Robert Bresson e Tran Anh Hung”. Adolfo Gomes, crítico de cinema e um dos curadores do evento, destaca que, a despeito dos estilos peculiares aos realizadores, há um ponto de convergência nada habitual à representação dos jovens no cinema. “As duas obras tratam da questão do suicídio já nessa etapa formativa dos sentimentos e da consciência. Pode parecer demasiado forte ou pessimista, mas devemos reconhecer: a juventude, ao mesmo tempo que prefigura toda uma vida pela frente, também pode ser o fim em si mesma, pela intensidade da sua própria experiência de desbravamento do mundo”, complementa.

Serviço:

SESSÃO DOUBLE BILL

Onde  Saladearte Cinema da Ufba 

Av. Reitor Miguel Calmon, s/n. Vale do Canela. Ao lado das Faculdades de Educação e Administração – PAC (Pavilhão de Aulas do Canela)

Quando dia 27 de maio, início às 10h.

Filmes O Diabo Provavelmente, de Robert Bresson e Norwegian Wood, de Tran Anh Hung

Tema do bate-papo: “Vida provisória: a juventude nos filmes de Robert Bresson e Tran Anh Hung”, com Adolfo Gomes e os cineastas Fabricio Ramos e Camele Queiroz.

 

Cinematógrafo na Saladearte de abril exibe “O Ódio”, de Kassovitz. Leia a nota dos curadores sobre o filme

A sessão do Cinematógrafo de abril será no sábado, 28 de abril, às 16h30, na Saladearte – Cinema do Museu, que fica no Corredor da Vitória, em Salvador.

Captura de Tela 2018-04-17 às 12.23.27

Nota dos curadores Fabricio Ramos e Camele Queiroz:

Mathieu Kassovitz tinha 28 anos quando dirigiu La Haine (O Ódio) em 1995. O filme segue, ao longo de 24 horas pelas ruas de Paris, o itinerário de três jovens parisienses, Vinz (Vincent Cassel), Hubert (Hubert Koundé) e Said (Said Taghmaoui), o primeiro de ascendência judaica, o segundo de ascendência africana e o terceiro de origem árabe. Um trio de amigos que expressa um distópico melting pot de sobreviventes das sociedades pós-industriais imersos na crise do estado nação. Trata-se de um filme sobre jovens, mas também de um filme, em si, jovem, preocupado com os contextos imediatos de seu tempo e lugar: os distúrbios urbanos que incendiaram Paris em 1991 compõem o eixo temático do filme.

Vinz, Hubert e Said (note-se que os três atores emprestam seus nomes reais aos personagens), vivem o cotidiano de seu bairro periférico onde, durante os distúrbios recentes, um jovem morreu vítima da violência da repressão policial. Vinz, inconformado com a situação, tenta convencer Hubert e Said de que algo precisa ser feito para mostrar ao estado e à polícia que eles “não estão para brincadeira”. Hubert e Said, entretanto, embora habitem o mesmo lugar e sofram os impactos da mesma violência que causa revolta em Vinz, não lhe fazem côro e enfrentam, cada qual à sua maneira, as adversidades de suas vidas marginalizadas. Durante a repressão policial aos distúrbios no bairro, um policial perdeu a sua arma, que foi encontrada por Vinz. Ele hesita, mas depois revela aos amigos que tem a posse do revólver e que pretende agir para vingar a morte do jovem! Em sua deriva por uma Paris geograficamente demarcada pelas tensões entre centro e periferia, as peripécias dos três jovens traduzem, em contraste com a crescente e imediata ameaça da violência, um esforço desesperado de acreditar numa vida digna. Entre o ódio e a esperança de viver, o drama juvenil dos três amigos reflete menos a revolta do que a impossibilidade da revolta.

A temática urgente em 1995, que mantém a mesma urgência hoje, aliada ao dinamismo formal – “O Ódio” é soberbamente filmado – e à fotografia em preto-e-branco, sugerem uma vontade documental de Kassovitz, que realiza um filme realista, político e que tem o êxito de não incorrer em panfletarismos. O ritmo enérgico reflete o olhar inquieto da juventude. A narrativa temporalmente linear (há um relógio que sempre retorna a mostrar as horas), não narra algum mote sobre a vida, mas nos torna cúmplices de um filme que acontece com a vida – ele não a transfigura, ele a expande no interior dos limites do cinema.

Em uma breve entrevista que Godard, um dos mais radicais inventores da Nouvelle Vague, concedeu ao diretor Alexander Kluge, um dos nomes expressivos do novo cinema alemão, este pergunta como Godard definiria o cinema a um eventual extraterrestre que lhe aparecesse. Godard reflete por um momento e começa por dizer que falaria ao extraterrestre de um aparelho, a câmera, inventado no início do século XX, que, tal como o telescópio servia para enxergar os distantes astros do universo, ou o microscópio nos auxiliava a ver o mundo tão próximo e invisível que os nossos olhos não alcançam, a câmera nos servia para ver a própria humanidade.

Em “O Ódio”, a câmera de Kassovitz nos oferece um ponto de vista sobre essa humanidade que somos, um ponto de vista jovem, enérgico, carregado de um ódio que, se infesta toda a nossa atmosfera social, nem sempre consegue destruir o que há de amor em nós. É esse amor – abstrato, inconsciente, profundo – que torna Vinz um personagem cindido entre a revolta violenta e o anseio de dignidade. É esse amor, talvez, que o impede, não sem um grande custo emocional, que ele mate um jovem neo-nazista que agredia os seus amigos. Mas “O ódio” é implacável, a catástrofe é anunciada, a violência e o assassinato não retrocedem. O filme nos situa no desconfortável lugar entre o impacto de dois “aparelhos”: o revólver explícito e a câmera que oculta a si mesma, mas nos revela algo dessa nossa humanidade.

TRAILER:

SOBRE O CINEMATÓGRAFO

Captura de Tela 2018-02-16 às 07.47.20

O Cinematógrafo, uma mostra de filmes independente sob curadoria de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, cineastas e curadores de Salvador. A iniciativa independente começou no Rio Vermelho, na Casa 149. Ali, num esquema artesanal de montagem de estrutura de projeção, realizou-se sessões durante seis meses, desde dezembro de 2016. Em julho de 2017, fomos convidados a realizar o Cinematógrafo no Cine XIV, sala no Pelourinho, em parceria com o Circuito Saladearte. Com o incêndio que consumiu o Cine XIV, interrompemos os encontros para os retomarmos, neste ano de 2018, no Cinema do Museu, sempre no último sábado de cada mês, às 16h30. Os ingressos custam R$ 12,00. O objetivo é, a partir de filmes de variados temas e formas, promover conversas sobre as relações do cinema com questões da vida e suas relações com a arte.

 

Cinematógrafo na Saladearte (sáb, 7/4) exibe “Homem Comum” (2014), de Carlos Nader. Confira o TRAILER e nota dos curadores:

O Cinematógrafo na Saladearte de março, por conta da semana santa, acontece excepcionalmente no primeiro sábado de ABRIL, dia 7, às 16h30, no Cinema do Museu.

Captura de Tela 2018-03-28 às 19.59.02

Nota dos Curadores do Cinematógrafo, Fabricio Ramos e Camele Queiroz, sobre “Homem Comum”:

Há mais de 20 anos, o cineasta Carlos Nader começou a se aventurar pelas estradas e rodovias do Brasil profundo, interpelando caminhoneiros, estabelecendo com eles conversas triviais até que, repentinamente, redirecionava a conversa para o tema das inquietações existenciais e da sensação de estranhamento diante do enigma da vida.

Num primeiro olhar, suspeitamos que Nader quer fazer expressar-se, através de um choque de sensibilidades distintas que um encontro entre um cineasta sofisticado e um simples caminhoneiro produz, o pensamento daqueles que não estariam “destinados” a pensar. Quê angústias metafísicas, que questionamentos existenciais, um homem ou uma mulher voltados para o aspecto prático da vida expressam e como os expressam?

A atitude de desbravamento de Nader, que inicia um incerto e peculiar road-movie, reconduz os caminhos do próprio filme, transformando a experiência do cineasta a partir de seu encontro com Nilson, o caminhoneiro Nilsão. Emerge entre eles uma espécie de amizade aparentemente destoante, mas fortalecida por algum mistério, por um fascínio mútuo que os une ao longo de uma aventura compartilhada que se estende de 1995 até 2012. Uma aventura que, nas palavras de José Miguel Wisnik sobre “Homem Comum”, realiza “uma extraordinária aproximação ao princípio que reconhece o caráter impenetrável do cotidiano, ao mesmo tempo que o caráter cotidiano do impenetrável”.

É a angústia existencial do cineasta que o move a questionar Nilson sobre a vida, mas é a presença da morte, em meio às tragédias de uma vida como tantas outras, que faz Nilson procurar o cineasta depois de vários anos.

Trata-se de um encontro mediado pelo cinema, não só pelo fazer cinema próprio de Carlos Nader, mas pela inserção, no filme em si e na relação de Nader com Nilson, de cenas do clássico do cinema mundial “A Palavra” (Ordet, 1955), do diretor dinamarquês Carl Theodor Dreyer. Neste clássico, a falta de sentido do mundo e o absurdo da vida são enfrentados e sofridos por seus personagens que, diante do acontecimento fatídico da morte, conclamam, de forma conflituosa e desesperada, o misterioso salto de fé.

São muitas as questões que “Homem Comum”enseja, sobre a vida e a morte, sobre as visões de mundo e sensibilidades marcadas por diferenças profundas, mas unidas, de um modo inalcançável, por um sentimento universal diante de uma vida enigmática, embora carregada de exigências práticas que, não raro, parecem soterrar o caráter impenetrável do cotidiano, mas não resistem a algo mais profundo, mais forte, que em certos momentos arrastam a todos nós para a espiral de uma outra visão da vida e do mundo.

Mas uma das questões que aparecem se dá no campo sensível que subverte as relações e os lugares que certa ordem do mundo define para cada sujeito: precisamente a questão de uma não-adesão fundamental à ordem das coisas que une, essencialmente, o cineasta existencialmente angustiado e o caminhoneiro que diz sequer ter a capacidade de sonhar.

Depois de ver o filme, fica-nos, entre outros sentimentos, o reconhecimento íntimo de que o tema das relações e das diferenças, em vários níveis, oferece mais complexidade do que admitem certos discursos eruditos, e nos sentimos animados a ampliar, a partir de nós mesmos até o outro mais distante, a dimensão das grandes questões, dos grandes sentimentos, que não são grandes por serem raros ou profundos, mas por se fazerem essencialmente presentes em todos nós, mulheres e homens comuns.

TRAILER:

 

SOBRE O CINEMATÓGRAFO

O Cinematógrafo, uma mostra de filmes independente sob curadoria de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, cineastas e curadores de Salvador. A iniciativa independente começou no Rio Vermelho, na Casa 149. Ali, num esquema artesanal de montagem de estrutura de projeção, realizou-se sessões durante seis meses, desde dezembro de 2016. Em julho de 2017, fomos convidados a realizar o Cinematógrafo no Cine XIV, sala no Pelourinho, em parceria com o Circuito Saladearte. Com o incêndio que consumiu o Cine XIV, interrompemos os encontros para os retomarmos, neste ano de 2018, no Cinema do Museu, sempre no último sábado de cada mês, às 16h30. O objetivo é, a partir de filmes de variados temas e formas, promover conversas sobre as relações do cinema com questões da vida e suas relações com a arte.
Localização:

Cinematógrafo na Saladearte de fevereiro (sáb, 24) exibe “Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood” (2010)

Obra de forte expressão poética constrói uma história de amor em torno da tragédia e da sexualidade como dimensões da vida. O Cinematógrafo exibe filmes mensalmente, na Saladearte Cinema do Museu (Corredor da Vitória, Ssa), sempre no último sábado do mês, às 16h30. As sessões são seguidas de conversas ao pé da mangueira, com café e cerveja à venda.

Captura de Tela 2018-02-14 às 12.35.43

Nota dos curadores do Cinematógrafo sobre o filme do próximo sábado:

Música, literatura e cinema: uma célebre canção dos Beatles empresta seu nome ao best-seller do escritor japonês Haruki Murakami, obra que o diretor franco-vietnamita Tran Anh Hung adapta para o cinema. Norwegian Wood (traduzido no Brasil como ‘Como na Canção dos Beatles: Norwegian Wood’), lançado em 2010, foi indicado ao Leão de Ouro no Festival de Veneza daquele ano e, desde então, vem causando impressões controversas na crítica e no público.

Se a proposta do Cinematógrafo na Saladearte é ensejar boas conversas sobre as relações do cinema com a vida e com as outras artes, Norwegian Wood nos oferece um leque exuberante de motivos: se leitores de Murakami questionam a força dramática da adaptação cinematográfica da obra literária, cabe aos amantes do cinema reclamar a especificidade da obra cinematográfica e as razões do diretor, considerado um esteta que, marcadamente, valoriza a intensidade visual, a presença da sensualidade na narrativa e o rigor na composição dos quadros, mis-èn-scene e dramaturgia.

Narrada por Watanabe, a trama se passa no Japão do efervescente ano de 1967 e se inicia a partir da relação triangular entre o protagonista narrador e um casal de amigos, Naoko e Kisuki, que se conhecem desde a primeira infância e se convertem em amantes desde cedo. Um acontecimento trágico transtorna a relação entre Watanabe e a sua amiga Naoko, que se separam para depois se reencontrarem e, juntos, redescobrirem a sexualidade, o sentido do amor e, cada um a sua maneira, enfrentarem a tragédia que se abateu sobre eles.

norwegian-wood-1

O que Tran Anh Hung nos oferece é um filme conscientemente moderno que se desvirtua dos clamores pós-modernos, por assim dizer, construindo personagens trágicos que vivem dramas existenciais alheios às conturbações estudantis de jovens que declinam discursos ideologizados, armados de certezas e que rechaçam as nuanças individuais em nome das lutas efetivamente políticas. O pano de fundo das vigorosas manifestações estudantis nas ruas de Tóquio contra a guerra do Vietnã, participando de um movimento globalizado de contestação política e de transformação de valores, substancia metaforicamente o processo drástico de transformação individual de Watanabe. Trata-se de um filme sobre amadurecimento emocional a partir do sofrimento, da experiência mesma de viver entre o afã de comunhão e de solidão, entre o erotismo transcendental e o desejo sexual que resulta de uma necessidade misteriosa e produz prazer, mas também frustração, medo e dor.

Norwegian Wood reflete, esteticamente, um tipo de realismo imaterial, com pouco ou nenhum espaço para a fantasia, mas carregado de sensorialidade musical e visual. A direção e composição da trilha sonora é assinada por Jonny Greenwood, guitarrista da banda inglesa Radiohead, e a fotografia ficou a cargo do experiente taiwanense Mark Lee Ping-bing. O resultado do conjunto do trabalho sonoro e fotográfico, aliado ao naturalismo da dramaturgia, é uma obra de forte impacto poético e emocional.

Aliás, no que se refere ao impacto emocional, este se impõe e exige um lugar especial que motivará, em nossa opinião, conversas enriquecedoras, controversas e vitais: afinal, o que Norwegian Wood nos propõe é uma reflexão poética e trágica sobre os modos como absorvemos as nossas próprias dores, como enfrentamos as nossas dúvidas e anseios, como convivemos com as fatalidades que fazem reluzir as difíceis realidades com as quais nos deparamos e que precisamos inescapavelmente enfrentar, em meio aos nossos ardentes desejos de comunhão constituintes de nossa vida ontologicamente solitária. Em suma, o filme nos leva a refletir sobre como a vida nos torna o que somos, a cada momento.

TRAILER:

SOBRE O CINEMATÓGRAFO

O Cinematógrafo, uma mostra de filmes independente sob curadoria de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, cineastas e curadores de Salvador. A iniciativa independente começou no Rio Vermelho, na Casa 149. Ali, num esquema artesanal de montagem de estrutura de projeção, realizou-se sessões durante seis meses, desde dezembro de 2016. Em julho de 2017, fomos convidados a realizar o Cinematógrafo no Cine XIV, sala no Pelourinho, em parceria com o Circuito Saladearte. Com o incêndio que consumiu o Cine XIV, interrompemos os encontros para os retomarmos, neste ano de 2018, no Cinema do Museu, sempre no último sábado de cada mês, às 16h30. O objetivo é, a partir de filmes de variados temas e formas, promover conversas sobre as relações do cinema com questões da vida e suas relações com a arte.