Sinais de Cinza

Captura de Tela 2014-04-01 às 16.32.28Grato a Henrique Dantas pelo convite para assistir seu filme Sinais de Cinza – A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade, que passou ontem (seg, 31 de março) no cinema da Ufba. Um filme que documenta e homenageia um dos cineastas emblemáticos do Brasil, ali de Feira de Santana, do sertão, assassinado espiritualmente e destruído fisicamente pela ditadura, pelos militares, pelos civis que festejaram a violência do golpe e da tortura, pela natureza mesma do poder, que não mudou.

Henrique nos apresenta Olney São Paulo, sua história, sua obra, sua vida, sua morte, a vida de seus filmes, e “Sinais de Cinza” vai ficando ainda mais forte, e a homenagem não se cala diante do descaso de todos os lados que abandona a obra de Olney, que abandona uma dimensão fundamental da arte e do cinema – qual o poder que quer que algo mais poderoso desperte e se levante no tempo? – Só se for o NOSSO poder… Assim senti o filme de Henrique, o Sinais de Cinza: um filme instrutivo no sentido mais nobre da palavra, um filme homenagem que nos conta de Olney da única forma que seria legítimo falar dele: com coragem, ousadia, com o espírito da Arte que renova, afinal.

Gratidão Henrique, por nos revelar Olney assim, sem mistificações, em toda a sua grandeza criadora, humana, sertaneja, migrante. Gratidão Henrique, por nos chamar a atenção. Gratidão por seu filme.

A PARTIR DE AGORA – As jornadas de junho no Brasil

Eu sou um dos participantes do filme de Carlos Pronzato, junto com diversas pessoas que vivenciaram nas ruas e nos debates livres as grandes manifestações de junho passado de 2013, em diferentes cidades do país. O conjunto das falas forma um panorama crítico diversificado, porém essencialmente sintonizado com os anseios mais fortes que predominaram e predominam nas manifestações no Brasil: vontade e luta por uma radicalização do sistema democrático que proporcione o protagonismo popular nas lutas e decisões Políticas.

Quanto à minha participação, em dado momento digo que “enfrentamos uma crise de representatividade”. Mas passei a refletir: enfrentamos, no âmbito político institucional, uma crise de representatividade ou de credibilidade? – talvez seja mais adequado falar em crise de credibilidade da política partidária junto à sociedade.

Atualmente, não há apenas motivos político-partidários, mas também razões vitais globais para se falar em transformação social ou em mutações da política. O que nos angustia é a desproporção abissal entre as competências da política e as exigências do real, afinal, todos sentem que o perigo cresce (social, ambiental, político)…

Não acho que o nosso momento político permita precipitações nem tagarelices, mas não deslegitimo os gritos de negação: “Não vai ter aumento” ou “Não vai ter Copa”. Num mundo mobilizado para o desastre, acredito mais em parar as cidades, desmobilizar as estruturas. Desmobilizar tudo o que está mobilizado.

Sobre o documentário:

“Realizado a partir de entrevistas com ativistas de cinco capitais brasileiras, o material não é apenas uma ferramenta para o debate e a compreensão das Jornadas de Junho, mas também um instrumento de organização da luta política, característica marcante da militância audiovisual de Carlos Pronzato, que também dirigiu, entre outros, “O Panelaço – a rebelião argentina” (2002) e “Carlos Marighella – Quem samba fica, quem não samba vai embora” (2011).”

Direção, roteiro e concepção: Carlos Pronzato
Direção de produção: Cristiane Paolinelli
Edição: Ricardo Gomes (Coletivo Das Lutas RJ)
Edição teasers e pesquisas de imagens adicionais: Richardson Pontone
Trilha: Apanhador Só
Realização: Lamestiza Audiovisual

Brasil, fevereiro de 2014.

o vaticínio do poeta: “vai haver repressão”

Em 2012, eu (fabricio ramos) e Camele Queiroz realizamos o “hera”, documentário que traz conversas com poetas baianos fundadores da revista “Hera”, publicação que marcou o cenário literário e cultural na Bahia.

Nesse trecho do filme, postado abaixo – Píluna n.5: trecho do doc “hera” – o poeta Antônio Brasileiro, fazendo referência à crise e aos protestos no mundo, vaticina em 2012: “vai haver repressão”.

Como diz Brasileiro, em outro trecho do filme, o poeta não atua na resistência porque “o poeta sempre está a frente”. Além de Brasileiro, participaram do documentário também os poetas baianos Juraci Dórea, Washington Queiroz, Wilson Pereira de Jesus, Roberval Pereyr e Uaçaí Lopes.


O documentário Hera está online na íntegra, em HD, no site do filme: http://hera.bahiadoc.com.br/

Vladimir Herzog realizou o primeiro filme com som direto no Brasil

Marimbás, de Vladimir Herzog, foi o primeiro filme a utilizar som direto no Brasil.

Vladimir Herzog (1937-1975), assassinado nas dependências de um destacamento do Exército, realizou Marimbás em 1963, utilizando som direto. O filme é um curta sobre pobres que vivem da pesca, rodado no Posto 6, em Copacabana.

Aconteceu que, em 1962, o Itamaraty convidou Arne Sucksdorff para participar de um seminário de cinema com o patrocínio da UNESCO. Sucksdorff veio equipado com as maiores novidades tecnológicas da época, entre as quais o gravador Nagra. Vladimir Herzog, Arnaldo Jabor, Joaquim Pedro de Andrade e Eduardo Escorel foram alunos do curso. O primeiro filme a utilizar som direto no Brasil, claro, saiu desse curso ministrado por Sucksdorff, e coube a Vladimir o privilégio de usar, pela primeira vez, o mítico gravador Nagra.

Canal Bahiadoc completa a série de seis webdocs que trazem conversas com cineastas baianos

Canal Cartaz Final

Do Blog do Bahiadoc:

Ao longo de um ano e meio, realizamos o Canal Bahiadoc, série de seis webdocs com a participação de cineastas baianos que realizaram filmes e vídeos ligados ao campo de não-ficção na Bahia.

O nosso objetivo foi, de forma introdutória, contribuir em algum grau para o debate e a difusão em torno das obras desses cineastas independentes e de contextos do cenário audiovisual e cinematográfico da Bahia.

O Canal teve o apoio do Fundo de Cultura da Bahia através de edital público (Demanda Espontânea 2011), e é uma realização de Fabricio Ramos e Camele Queiroz, através do Bahiadoc – arte documento, iniciativa independente que quer discutir a prática do documento e contribuir para a formação de espaços reais e virtuais que dinamizem a interação entre novos agentes criativos na Bahia.

Os realizadores do Canal agradecem a todos os cineastas que participaram, e a todos que acompanharam, assistiram e difundiram os webdocs pelas rede.

Sabemos que há muitos outros cineastas, videomakers e artistas do audiovisual realizando trabalhos de relevância para a nossa memória cultural e artística. Quem sabe, novas edições virão para conversar com ainda mais gente – será esse o nosso esforço.

Todos os webdocs e as informações sobre o Canal Bahiadoc estão acessíveis no sítio do projeto. Acessem, difundam, critiquem, em:

http://www.bahiadoc.com.br/canalbahiadoc

SOBRE OS WEBDOCS:

1 e 2. Os dois primeiros webdocs trazem encontros com realizadores baianos que viabilizaram projetos através do Programa DOCTV na Bahia, abordando discussões sobre acesso aos bens culturais, programas públicos de incentivo e sobre os temas – de relevância cultural e social – abordados por cada realizador. Participaram do primeiro: Paula Gomes, Bernard Attal, Elson Rosario, Sophia Mídian Bagues e Felipe Kowalczuk. Do segundo, participaram: Wallace Nogueira, Mônica Simões e Isana Pontes.

3. O terceiro webdoc traz um encontro com o Cual Coletivo UrgentedeAudiovisual, que pensa o cinema realizando filmes independentes a partir de uma dinâmica de cooperação.

4. O quarto webdoc traz uma conversa com Carlos Pronzato, profícuo documentarisa que aborda temas sociais e históricos, além de atuar como videoativista.

5. O quinto webdoc traz uma conversa com o cineasta Antônio Olavo, cuja trajetória como realizador é marcada pela abordagem de temas alicerçados nas vivências do povo negro e nas lutas sociais e históricas.

6. E o sexto webdoc é com Henrique Dantas, cineasta que tem realizado filmes que resgatam a nossa memória cultural, com potência artística, força crítica e amplitude política e cinematográfica.

Lembrando, todos os webdocs podem ser acessados no sítio do projeto:

http://www.bahiadoc.com.br/canalbahiadoc

Henrique Dantas participa do sexto webdoc do Canal Bahiadoc

Nos próximos dias, publicaremos o sexto webdoc do Canal Bahiadoc, desta vez com Henrique Dantas, cineasta que tem realizado filmes que resgatam a nossa memória cultural, com potência artística, força crítica e amplitude política e cinematográfica. – Do blog do Bahiadoc Arte Documento.

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Henrique Dantas é inquieto e perspicaz – percebemos isso nos primeiros instantes da conversa que aconteceu em sua casa. Atua como diretor, roteirista e diretor de arte. Entre os seus principais trabalhos estão a direção e o roteiro do longa Filhos de João, O Admirável Mundo Novo Baiano, documentário que recebeu quatro Candangos no Festival de Brasília em 2009, entre os quais o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio do Júri Popular. Foi diretor de arte de vários curtas e dos longas Estranhos (2008) e Trampolim do Forte (2009). Também realiza trabalhos nos campos de videoarte, fotografia e videoclipe.

Filhos de João levou 11 anos para ficar pronto, tempo que revela o quanto fazer cinema na Bahia (ou em qualquer região fora do eixo) exige compromisso e persistência, como enfatiza o próprio Henrique. O filme apresenta a trajetória do grupo musical Novos Baianos, mostrando uma retrospectiva do estilo de vida comunitário adotado pelos integrantes do grupo e comentando a marcante influência de João Gilberto na trajetória dos Novos Baianos, motivo do título do filme. O Admirável Mundo Novo Baiano perpassa toda a cultura urbana do underground baiano ao longo dos últimos quarenta anos.

Depois, Henrique passou a se dedicar ao resgate da importância do cineasta Olney São Paulo – a quem Glauber Rocha chamava de “mártir do cinema brasileiro” – no cenário do cinema e da política no Brasil, propondo reflexões críticas com sensibilidade estética e apropriações de diferentes linguagens artísticas em suas realizações.

Captura de Tela 2013-12-10 às 20.49.42Ser Tão Cinzento, curta premiado no É Tudo Verdade e no Festival de Brasília em 2011, conta a história da perseguição política contra Olney, por parte da Ditadura Militar. A partir da projeção de Manhã Cinzenta (1969), uma das mais marcantes obras de Olney, nas paredes de uma construção em ruínas com elementos do cenário que remetem à tortura, o filme traz depoimentos de Orlando Senna, Silvio Tendler, José Carlos Avellar e Luis Paulino dos Santos, entre vários outros entrevistados, que falam sobre as filmagens de Manhã Cinzenta e sobre as circustâncias em que Olney foi perseguido, preso e torturado, vindo a falecer em 1978, vítima de um longo processo de abusos perpetrados pelo regime ditatorial civil/militar que vigorou por mais de 20 anos no Brasil.

Em 2013, Henrique realiza Sinais de Cinza, A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade, filme que, de forma mais ampla, busca dar a dimensão da importância do cinema de Olney São Paulo, através dos depoimentos de Nelson Pereira dos Santos, Orlando Senna, José Carlos Avellar, Helena Inês, Edgar Moura, Edgard Navarro ,Tuna Espinheira, entre vários outros ícones brasileiros do cinema. Sinais de Cinza percorre agora festivais, tendo participado do Festival do Rio e do Festival de Havana.

Atualmente, Henrique Dantas trabalha no projeto provisoriamente chamado Galeria F, filme que narra vivências de presos políticos na Bahia nesses mesmos anos de chumbo da ditadura militar.

Henrique fala com firmeza e ao mesmo tempo com serenidade. “Para falar de meu trabalho eu preciso falar de mim”, diz, revelando o pertencimento pleno que o conduz na escolha de seus temas e na realização de suas obras. A conversa que gravamos será publicada em breve, no sexto webdoc do Canal. Acompanhe as nossas redes no Facebook e Twitter.

sobre “Rouge Parole” – depois da Primavera, liberdade e impasse

O enfoque de Rouge Parole (2011) é os dias seguintes a revolução tunisiana, que derrubou o ditador Zine El Abidine Ben Ali, que ocupou o poder no país de 1987 a 2011, com o apoio do ocidente. A revolta da Tunísia desencadeou a Primavera Árabe, a onda revolucionária que se alastrou pelo Oriente Médio e norte da África em 2011. Destacam-se, em minha leitura do filme, dois aspectos que determinam a sua linha condutora: o discurso liberal da Liberdade e a imposição do impasse pós-revolta e queda do ditador: quê fazer? E agora?

Rouge Parole é verborrágico. Enfatiza o discurso da liberdade que impregna jovens e velhos, homens e mulheres, registrando o extravaso de um povo nos dias seguintes à conquista de uma liberdade de expressão cerceada durante 23 anos de regime autoritário. O filme suscita reflexões múltiplas que se sobrepõem em camadas diversas: o polêmico protagonismo, na revolução, das redes sociais (especialmente do Facebook e blogues), o conflito de gerações, o papel da imprensa, do jornalismo e dos dispositivos móveis como celulares (aparatos que alimentava na internet as redes de conteúdos), as disputas entre a ideia de laicidade do estado e as tradições religiosas islâmicas. São situações que se relacionam imediatamente com a liberdade recém conquistada e os novos espaços de disputas políticas em formação em novos contextos de pluralismo de ideias e orientações democráticas.

O impasse: o quê fazer do país na pós-revolução? No auge das revoltas que culminaram com a queda do regime, as diferenças culturais e regionais foram posta de lado, pelo menos em segundo plano, em favor de uma causa maior. Mas uma vez vitoriosos os anseios de mudança, aparecem as disputas: quê mudanças? Em quê direções? E sob o comando de que grupos, ideias, partidos ou movimentos? O que sentimos é que predomina, no filme, o ideário ocidental de liberdade democrática, embora – em dado momento do filme – dois tunisianos discutam: o que é mais fundamental e que deve vir primeiro: o pão ou a liberdade? a liberdade ou o pão?

Cinematograficamente, o diretor tunisiano Elyes Baccar – com o uso de câmeras leves e de alta performance – conseguiu aliar a reflexão política a uma experiência estética bastante estimulante. Obteve êxito em aproximações discretas das pessoas, explorando planos detalhes e alternando-os com planos abertos que descrevem situações e contextos relevantes para compreendermos que a África, com todas as suas particularidades, é também próxima de nós em suas contradições, anseios sociais e no cotidiano das lutas políticas. No final, depois das revoltas, pichações e inscrições revolucionárias são apagadas das paredes de prédios públicos de Tunis. A imagem sugere a questão: até que ponto as marcas de uma revolução podem ser apagadas? As imagens do próprio filme que registra esse apagamento simbólico dá conta de parte da resposta: as imagens ficam.

Rouge Parole tem sido considerado um dos principais documentários sobre a Revolução da Tunísia. Foi eleito um dos 12 melhores documentários de 2012 pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, além de ter recebido diversos prêmios, como o melhor documentário africano do AALA Milan 2012, entre outros.

Assisti o filme na a Mostra África Hoje que, de 26 de novembro a 1º de dezembro, acontece na Caixa Cultural, exibindo parte da produção africana contemporânea de documentários.

Mostra exibe em Salvador produção africana de documentários

De 26 de novembro a 1º de dezembro, acontece na Caixa Cultural a Mostra África Hoje, que apresenta parte da produção africana contemporânea de documentários. Em sua segunda edição (primeira vez em Salvador), o evento exibe 18 longas e médias metragens, a maioria inéditos no circuito comercial brasileiro.

Dentre os filmes que compõem a programação:

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Fahrenheit 2010, de Craig Turner. O filme trata dos preparativos da Copa do Mundo na África do Sul, um tema fundamental no atual momento brasileiro. Ele desperta muitas reflexões válidas em relação aos mega investimentos feitos e que posteriormente são pagos pelo contribuinte. E a pergunta que sempre fica: para o benefício de quem? Passa Dia 30/11 – sábado, 15h.

Rouge Parole (2011), que foi eleito um dos 12 melhores documentários do ano pelo MOMA (Museu de Arte Moderna de Nova York). Dirigido por Elyes Baccar, o filme, um dos principais relatos sobre a Revolução da Tunísia. Dia 26/11 – terça-feira, 18h30.

A programação completa e informações sobre a Mostra e os filmes no site: http://mostraafricahoje.blogspot.com.br

Dandara é de Luta: ocupar é um dever

O filme Dandara: enquanto morar for um privilégio, ocupar é um direito, dirigido por Carlos Pronzato, nos apresenta a ocupação Dandara, em Belo Horizonte, narrando a história da comunidade marcada pela luta por moradia, mas cuja experiência de cinco anos ultrapassa esta luta, em si, fundamental: a vida dos moradores da ocupação, suas posturas, falas, trabalhos e ações, revela um emblemático e exitoso processo de criação de alternativas sociocomunitárias, de luta efetiva não só por direitos básicos, mas por uma nova concepção de cidade, de organização social e do que é viver.

Com o apoio efetivo das Brigadas Populares e de diversas entidades da sociedade civil que, ao longo de cinco anos, vêm reconhecendo a legitimidade tanto política quanto jurídica da ocupação, Dandara enfrentou a opressão policial desde o seu primeiro dia de ocupação e, depois, passou a lutar sem pausas pela atenção institucional do Poder Público, em várias esferas, que ignora (ou suprime) o direito constitucional da moradia em favor da indústria da especulação imobiliária. Em Belo Horizonte, inclusive, o déficit habitacional quase equivale ao número de imóveis desocupados, que jazem a serviço do interesse de especuladores.

A ocupação ainda não venceu a luta maior, que garantirá a regulamentação da comunidade, reconhecendo-a como um bairro da cidade. Mas a iniciativa é vitoriosa todos os dias quando vivencia no cotidiano a conquista de seus direitos. O êxito cotidiano da comunidade prova que, não havendo iniciativa por parte do Estado para garantir justiça social, é fundamental a ação dos movimentos sociais e a continuada organização popular.

Através da gente de Dandara e dos agentes que se mobilizam em torno da luta da comunidade, o filme de Carlos Pronzato mostra, com sensibilidade e perpassando questões amplas – o protagonismo feminino na história da ocupação, o racismo estrutural do país, a importância da solidariedade – que uma luta legítima organizada alcança, para além da resistência, uma existência digna, sempre em processo, sempre em luta. Vale ver o filme.

nota sobre “Morro dos Prazeres”, doc de Maria Augusta Ramos

Se em “Justiça” (2004) e “Juízo” (2007) Maria Augusta Ramos consegue mostrar a má-fé institucional que faz o discurso humanista (a ideologia) do Poder Judiciário refletir em práticas e condutas que contradizem cotidianamente esse discurso, em “Morro dos Prazeres” (2013) há o discurso do “pacto” como solução social, mesmo mostrando descompassos entre a lógica do estado e os moradores do morro. Se os dois primeiros filmes revelam como se concretiza o Direito no Brasil, o último quer transmitir uma tentativa de diálogo entre Estado e comunidade por intermédio da UPP. Será mesmo um diálogo?

Captura de tela 2013-11-03 às 01.31.29“Morro dos Prazeres” observa o processo de implantação de uma UPP nesta favela do Rio, registrando contextos envolvendo a ação da polícia e o cotidiano dos moradores, e elegendo personagens que manifestam suas posições, sejam moradores do morro ou policiais. No filme, a UPP serve como aparato de assistência à população do morro (oferece segurança, investiga denúncias, faz patrulhas, controla o volume do som do baile funk, autoriza ou não a realização de festas). Não há registro de apreensão de drogas nem de armas, nem prisão de acusados. Há referências a pequenos distúrbios que ensejam a intervenção da polícia, como brigas de bar.

Um Coronel declara que as mortes de policiais em ação diminuíram de 23 para 3 por ano de 2006 para cá (não menciona as mortes de cidadãos mortos pela ação da polícia). 

Vemos baculejos em adolescentes pretos como rotina operacional da PM, seguidos de momentos de silêncio dos jovens que são dispensados com um “boa tarde” do policial que os revistou autoritariamente. Alguns jovens são insolentes diante da ação arrogante da polícia: “sem arrogância” diz um menino durante a abordagem policial, e o policial comenta com o outro: esse já tem a “semente do mal”.

Captura de tela 2013-11-03 às 01.49.36Mas, em outra sequência do filme, um coronel fala para jovens oficiais que atuam na UPP sobre a morte de uma policial, atingida por um tiro nas proximidades da sede da Unidade Pacificadora. Há violência, há mortes, e o coronel quer “pegar o bandido que fez isso”. Mas o que vemos são recorrentes baculejos em jovens pretos abordados nos becos e ruelas da favela…

 A UPP, quando vem desacompanhada de um projeto social amplo, se torna uma mera gestão policial da vida dos pobres, legitimada por visões de mundo marcadas por um imaginário social simplório e equivocado: os trabalhadores – a boa sociedade – precisam de proteção contra as ameaças da má parcela da sociedade, os delinquentes.

O filme não é reducionista e constrói um painel nada maniqueísta da situação: no conflito entre moradores e polícia há um diálogo construído pelo filme. Mas também não ousa: deixando entrever que a UPP se constitui ali como uma etapa para o abrandamento da violência social, mesmo reconhecendo que a PM é uma estrutura que precisa ser transformada, o filme acaba reforçando e reproduzindo ideologias dominantes (o discurso de um pacto social) e passando ao largo de nossas questões sociais mais fundamentais:

Como nossa sociedade classifica as pessoas e mesmo a geografia da cidade? Como a sociedade legitima a dominação que naturaliza e reproduz infinitamente a perversa desigualdade social brasileira que resulta em crescente violência? – Mas o filme tem êxito, mesmo assim, pela sensibilidade (inclusive visual),  e sobretudo pela busca de uma síntese não redutora e pelo esforço de observar e entender – e transmitir – aspectos graves de realidades tão complexas.