Cinematógrafo na Casa 149 de junho (dia 29) exibe o filme argentino XXY

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“XXY”, escrito e dirigido pela argentina Lucía Puenzo, é uma é uma co-produção da Argentina, França e Espanha, lançada em 2007.

Sinopse: Alex (Inés Efron) nasceu com ambas as características sexuais. Tentando fugir dos médicos que desejam corrigir a ambigüidade genital da criança, seus pais a levam para um vilarejo no Uruguai. Eles estão convencidos de que uma cirurgia deste tipo seria uma violência ao corpo de Alex e, com isso, vivem isolados numa casa nas dunas. Até que, um dia, a família recebe a visita de um casal de amigos, que leva consigo o filho adolescente. É quando Alex, que está com 15 anos, e o jovem, de 16, sentem-se atraídos um pelo outro.

O filme, um drama intenso e sensível de tema delicado, tem um ritmo pausado e reflexivo. XXY é a estréia na direção de Lucía Puenzo, conhecida pelos roteiros de filmes como A través de tus Ojos e La Puta y la Ballena, além de escrever para séries de televisão como Hombres de Honor e Sol Negro. Seu pai, Luis Puenzo, é diretor premiado com o Oscar de melhor filme estrangeiro em 1986, com o filme A História Oficial, sobre desaparecidos durante a ditadura argentina.

Em termos de festivais e prêmios, o filme teve uma importante trajetória: recebeu o Prêmio da Crítica no Festival de Cannes e foi escolhido para representar a Argentina na disputa por uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Além disso, XXY ganhou o Goya (o Oscar espanhol) e o Ariel (o Oscar mexicano) de Melhor Filme Latino Estrangeiro, foi o grande vencedor da premiação dos críticos de cinema da Argentina (Melhor Filme, Roteiro e Atriz, para Inés Efron) e ganhou os festivais de Atenas (Grécia), Bangkok (Tailândia), Cartagena (Colômbia), Edinburgo (Escócia), Montreal (Canadá) e São Francisco (EUA), entre outros.

A Casa 149 fica no Rio Vermelho, na orla, próxima à praia da paciência. A sessão começa às 19h30 e a entrada é franca.

CINEMATÓGRAFO NA CASA 149

O Cinematógrafo na Casa 149 apresenta filmes de variadas temáticas, formas e gêneros que, como eixo comum, dialoguem com diversas questões contemporâneas.

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A iniciativa realiza uma série de encontros mensais, com exibição de filmes seguidas de rodas de conversas, que acontecerão até dezembro de 2017. As sessões acontecem toda última quinta-feira do mês, na Casa 149, galeria de arte e espaço cultural que fica no Rio Vermelho, na Rua da Paciência (orla), em Salvador. A curadoria da mostra é feita por Camele Queiroz e Fabricio Ramos, que são cineastas e também atuam no campo da difusão do cinema independente. Os filmes que serão exibidos serão divulgados a cada mês em nossas redes.

Desde Dezembro de 2016 (com um intervalo em fevereiro, devido ao carnaval), o Cinematógrafo exibiu os filmes “Gueros” (México, 2015); “A Caça” (Dinamarca, 2012); “O Abraço da Serpente” (Colômbia, 2016);  “O Ato de Matar” (Dinamarca, Noruega, Reino Unido, 2012), e “Nostalgia da Luz” (EUA/ALE/Chile/ESP/FRA, 2010, Cores, 90 min), de Patrício Guzmán.

Todas as informações serão difundidas nesta página e na página da série de eventos no Facebook:

/// https://www.facebook.com/cinematografo149/ ///

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# festivais de cinema independente e os agenciamentos do poder:

tempos-modernos

Cineastas, tal como qualquer artista, devem cuidar para não se deixarem ser atirados na espiral de agenciamentos que envolvem circuitos de festivais, academia, mercado e, inescapavelmente, o estado, que derrama o dinheiro nos potes dessas instâncias todas.

Festivais de cinema se referem a “estatus” e pouca coisa mais. Por outro lado, ao mesmo tempo em que são vitrines restritas, são também janelas para alcançar uma parte expressiva do público interessado em cinema independente — coisa da qual não se pode prescindir.

O desafio, portanto, é — para aqueles cujo processo de criação é um desafio em si, que buscam participar de um cinema cujo processo exigente produz uma obra que é experiência estética mas também expressão de vivência e visão de mundo — o desafio, como dizia, é realizar filmes que, ao mesmo tempo em que não se importem com as imposições dos circuitos estabelecidos e mesmo as questionem e neguem, acabem por explorar e expor as contradições internas desses circuitos de festivais e seus agenciadores, que os forcem a descobrir e a “acatar” filmes que, desobedientes àquelas imposições (que advém de pressuposições do que é cinema por parte de forças agenciadoras) aconteçam como algo vivo, algo novo e uma força que torna o cinema o que é — e cada um, cada filme, que diga o que é o cinema.

Infelizmente, isso — esses questionamentos que se dariam no interior dos próprios filmes — acontece cada vez menos nos festivais (basta ver as polêmicas em torno do último Festival de Tiradentes, dedicado a esse cinema “inovador” e autoral) ao passo que, paradoxalmente, os filmes — ou seja, os cineastas — se exasperam para se adequar àquelas imposições agenciadoras, realizando filmes desprovidos de cinema, mas repletos de discursos carregados de retóricas acadêmicas, festivalescas, imitativas de vanguardas francesas do início do século, e quando ousam abordagens potencialmente políticas, se reduzem a expressões militantes limitadas às urgências mais superficiais dos contextos em voga.

O aspecto estimulante do problema é que aquelas polêmicas (a exemplo de Tiradentes) ocorrem e podem ser consequentes, o que revela que há um zeitgeist crítico louco para sair da garrafinha daquelas forças agenciadoras. Às vezes eclodem conflitos entre curadorias, júris técnicos, críticos e público, estes últimos — crítica e público — sendo aqueles que melhor expõem as limitações daqueles. Os cineastas ainda buscam um lugar nesse jogo de tensões.

E o que deve ser ainda mais revelador:

O que será que nos reserva todo aquele volume de filmes que ficam de fora dos circuitos “oficiais” (90% em média), ou seja, dos circuitos estabelecidos — de uma forma ou de outra — pelas imposições dos poderes agenciadores? Ninguém desse campo agenciado está fazendo essa arqueologia que pode descobrir tesouros e, inclusive, alimentar mercados. Nem mesmo os cineastas o fazem, obedientes que são aos ditames dos circuitos e apegados à busca de estatus. Quem pode fazer essa arqueologia é o próprio público, esse “agente” sempre virtual, ou seja, que pode se atualizar a cada festival, a cada sessão, a cada experiência de cinema.

Uma gota de otimismo:

O público, penso, já está fazendo essa arqueologia, sempre a faz: se os cineastas percebem isso, ficam livres para fazerem cinema.

Cinematógrafo na Casa 149 exibe “O ato de matar” na quinta-feira, dia 27/4

Produzido por Werner Herzog e Errol Morris, The Act of Killing é “uma das mais chocantes obras sobre a representação do Mal na sociedade contemporânea”. A sessão, seguida de conversa, acontece na quinta, dia 27 de abril, às 20h, na Casa 149 (orla do Rio Vermelho, praia da Paciência). Entrada Franca.

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Produzido por Werner Herzog e Errol Morris, The Act of Killingé “uma das mais chocantes obras sobre a representação do Mal na sociedade contemporânea”. A sessão, seguida de conversa, acontece na quinta, dia 27 de abril, às 20h, na Casa 149 (orla do Rio Vermelho, praia da Paciência). Entrada Franca.

Produzido por Werner Herzog e Errol Morris, The Act of Killing (Dinamarca, Noruega, Reino Unido, 2012) – ou ‘O ato de matar’, um filme perturbador e formalmente atípico, revela os horrores da ditadura Indonésia, que executou um massacre de comunistas através de milícias paramilitares. Os indivíduos que participaram dessas milícias não responderam por seus crimes: ao contrário, são considerados heróis nacionais pelo regime ainda “vitorioso” e, no filme, esses homens não apenas narram com orgulho os assassinatos e torturas que cometeram, mas reencenam tais crimes, colaborando com a direção das cenas em que eles atuam, inspirados pelos filmes…

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Cinematógrafo na Casa 149 exibe “O Abraço da Serpente”

Participe do Cinematógrafo na Casa 149.

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A proposta da iniciativa é apresentar filmes de variadas temáticas, formas e gêneros, mas que, como eixo comum, dialoguem com diversas questões contemporâneas.

O Cinematógrafo na Casa 149 realiza uma série de encontros mensais, com exibição de filmes seguidas de rodas de conversas, que acontecerão até dezembro de 2017. As sessões acontecem toda última quinta-feira do mês, na Casa 149, galeria de arte e espaço cultural que fica no Rio Vermelho, na Rua da Paciência (orla), em Salvador.

A proposta é apresentar filmes de variadas temáticas, formas e gêneros, mas que, como eixo comum, dialoguem com diversas questões contemporâneas. A dupla Camele Queiroz e Fabricio Ramos assumem a curadoria. Os filmes que serão exibidos serão divulgados a cada mês em nossas redes.

MARÇO 2017

O filme deste mês será “O Abraço da Serpente”, dirigido pelo colombiano Ciro Guerra.

Confira a breve nota dos curadores Fabricio e Camele sobre o…

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Cinema: eis o debate que me interessa

“Retomada atual dos filmes documentários supre a carência de inventividade do cinema contemporâneo”. O texto de Rancière, de 2005, é mais atual agora (Acesse o texto na Folha).

O autor menciona, como exemplos de cinemas que rompem a partilha geopolítica do mundo cinematográfico entre Europa e América, a extraordinária vitalidade do cinema produzido no Extremo Oriente e a retomada da ficção documentária.

Mas, depois, menciona precisamente cineastas europeus — Chris Marker e Van der Keuken — como aqueles que revitalizam o cinema expressando “o parentesco enigmático dos traços da história e das formas artísticas”. É acertado. São cineastas que rompem verdadeiramente essa partilha dominante, juntando arte e história.

Mas talvez, em outras latitudes ocidentais, esse “parentesco enigmático dos traços da história e das formas artísticas” faça outras exigências. Porque aqui as histórias são outras e, portanto, as ficções são outras. Os traços — tanto da história quanto da arte (e especialmente do cinema) — são outros.

Não obstante o “sucesso” de filmes brasileiros recentes e sobrevalorizados (cujo exemplo maior é “Aquarius”), o cinema de maior potência de inventividade por aqui (virá, já vem vindo) é aquele que se interessa mais pelas pessoas e tudo o que isso implica, do que pela forma (que é um meio de expressão e não um fim a ser “obedecido”); que se interessa mais pelos problemas humanos do que pela mise en scène. Um cinema que não tenta transmitir suas ideias ao público, mas que mostra ao público a vida mesma, para que o público (as pessoas) descubra e invente, por si mesmo, as maneiras de apreciá-la e julgá-la, recriando — a partir do filme e junto com suas vivências pessoais — suas próprias ideias. (Trata-se, inclusive, de um cinema mais “barato” e, portanto, mais viável em termos de condições de produção). É aí que se inicia o rompimento de uma outra partilha dominante: a das medições e agenciamentos do cinema.

Retorno a Rancière: o fenômeno de cinemas assim não significa “algum retorno significativo, em tempos de ‘crise de arte’, bem como de crise econômica e social, da representação direta da realidade e do engajamento nos conflitos contemporâneos”. Não. Seria simplório e confuso ver por esse ângulo, concordo com Rancière. A importância que assume tal fenômeno se deve, bem por outro ângulo, ao interesse renovado pelos recursos ficcionais próprios à arte cinematográfica que ele mobiliza e intensifica, recursos que, paradoxalmente, os filmes de ficção têm mobilizado muito pouco.

Segue artigo de Jaques de Rancière para a Folha (2005), que faz parte das suas “crônicas dos tempos consensuais”, um bloco de textos curtos de jornal sobre arte, política, filosofia. Link: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs13129803.htm

Cinematógrafo na CASA 149

A proposta é realizar uma série de encontros mensais, com exibição de filmes seguidas de rodas de conversas, que acontecerão de janeiro a dezembro de 2017. As sessões acontecerão toda última quinta…

Fonte: Cinematógrafo na CASA 149

Assista o curta “Regulamentação da profissão de vaqueiro”, de Camele Queiroz e Fabricio Ramos

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O documentário “Regulamentação da Profissão de Vaqueiro”, dirigido por Camele e Fabricio, acompanha a viagem dos vaqueiros da Bahia a Brasília. Os diretores foram honrados com a presença, devidamente autorizada, de canções de Elomar na trilha sonora do filme.

Filme na íntegra:

Vaqueiros CRTAZ arte 3 defSINOPSE:

Em setembro de 2013, vaqueiros de diferentes regiões do sertão nordestino viajaram a Brasília para acompanhar, no Plenário do Senado Federal, a votação do Projeto de Lei que dispõe sobre a regulamentação da profissão de vaqueiro no país. O registro, dirigido por Fabricio Ramos e Camele Queiroz, é uma memória da viagem.

Brasil l HD l Cor l 2013

SOBRE O FILME

Captura de tela 2013-10-02 às 19.00.30A convite do antropólogo Washington Queiroz, os realizadores Fabricio Ramos e Camele Queiroz embarcaram num ônibus junto com trinta e dois vaqueiros vindos de diferentes regiões do sertão da Bahia. A comitiva seguiu para Brasília, rumo ao Plenário do Senado Federal, para acompanhar a…

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nota sobre “Francofonia”, de Alexandr Sokurov

Captura de Tela 2016-08-21 às 12.10.14“Francofonia” (2016) é uma elegia à Europa, já foi dito por aí na imprensa.

O filme de Sokurov, na forma de um comentário despretensioso e subjetivo, nos relembra toda a civilização e barbárie moderna para pensar a relação entre museus e poder na Europa, expressando meio que um pequeno inventário das sensibilidades através do encontro, mediado pelo Louvre e seu simbolismo, de dois personagens que compactuam o respeito aos museus da Europa, mas que se encontram sob o signo da dominação política e militar: o aristocrata à serviço da máquina nazista e o republicano à serviço do funcionalismo público francês. Ambos profundamente ligados à história da Arte, mas movidos muito mais pelo amor à “civilização” que, não obstante a imposição de mais uma guerra brutal, produz suas memoráveis maravilhas.

Civilização que o russo Sokurov, que começa o filme mostrando Tolstoi e Tchekov, a um só tempo celebra e execra. No belo “Arca Russa” ele exaltou o Hermitage e, se lembramos disso, compreendemos o choque do diretor oscilando entre o fascínio pela cultura europeia e a denúncia da barbárie nazista contra a Rússia, que vitimou milhões de russos no cerco a Leningrado, a mesma São Petersburgo do Hermitage, a mesma cidade que nasceu do ímpeto fáustico de uma Rússia imperial que preambulou a história europeia e mundial do século XX com a revolução bolchevique. Na guerra, respeito à França (invadida e ocupada), mas destruição à Rússia, esse oriente, esse bolchevismo, essa não-europa.

Não gostei, dramaticamente falando, das inserções dos personagens performáticos de Napoleão e da Marianne, ambos representando a República Francesa de forma delirante e excessivamente caricatural. Talvez tais recursos narrativos tenham advindo da necessidade do diretor de personificar a História, porém com menos êxito do que o personagem do comandante de uma navio (que fala com Sokurov de forma instável pela internet) que transporta obras de arte em contêineres enquanto enfrenta uma tempestade absurda.

Sem citar o poeta russo, Sokurov nos ilustra o mar agitado da História, cuja civilização e barbárie engendrou os maravilhosos museus de seus filmes, instituições que sobreviveram às tantas guerras travadas naquela Europa. Em “Francofonia”, entretanto, o destino do navio que leva as obras de arte naqueles mares agitados não é conclusivo. Sokurov nos deixa em suspenso, sem um “fim da história”, mas em meio a uma enorme ameaça.

MUROS na Semana de Fotografia da Bahia

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O filme, que relaciona Brasil e Palestina enquanto acompanha o fotógrafo Rogério Ferrari por favelas de Salvador, passa no dia 4/8 (quinta-feira), às 18h.

MUROS 4MUROS (25min, 2015), filme de Camele Queiroz e Fabricio Ramos, participa da programação da Semana de Fotografia da Bahia, que acontece na CAIXA Cultural Salvador, entre os dias 2 e 6 de agosto, com uma programação de oficinas, conferências, filmes e lançamento de livros para o público de todas as idades.

O filme, que relaciona Brasil e Palestina enquanto acompanha o fotógrafo Rogério Ferrari por favelas de Salvador, passa no dia 4/8 (quinta-feira), às 18h.

Com o tema “Narrativas Visuais e Fronteiras entre Arte e Documental”, a Semana de Fotografia da Bahia acontecerá na Caixa Cultural, que fica na Av. Carlos Gomes, em Salvador. A programação conta com oficinas gratuitas e vai destacar o papel das mulheres na fotografia, com diversas fotógrafas à frente das…

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nota sobre “Güeros” (2014), filme do mexicano Alonso Ruiz Palacios

Três personagens, marcados pela apatia e pelo tédio, percorrem a Cidade do México em busca de um roqueiro mexicano obscuro, desconhecido e prestes a morrer, mas que teria feito “Bob Dylan chorar”. Com atmosfera de comédia sensível e com fluidez narrativa e dramática, Güeros (2014), debute do diretor mexicano Alonso Ruiz Palacios, desdobra a relação entre Cinema e experiência, compondo um poema visual a cada tomada e revelando um feliz domínio estilístico da linguagem do cinema.

Na trama, o menino do interior Tomás, por causa de seu comportamento que a sua mãe, cansada, já não consegue controlar, é mandado para uma temporada na casa do irmão mais velho Federico, na Cidade do México. Federico, apelidado sugestivamente de Sombra, vive confinado com o amigo Santos, ambos universitários, num apartamento escuro, claustrofóbico e sujo. Ao saberem que Epigmenio Cruz, o roqueiro que marcou a infância dos irmãos, está à beira da morte, resolvem visitá-lo para que ele autografe a fita cassete que Tomás não se cansa de ouvir. O modo como a Cidade do México é percorrida pelos personagens revela as escolhas do diretor, que infiltra aspectos sociais, económicos, políticos e geográficos, tornando esses aspectos, junto com os ruídos e os enquadramentos, elementos estruturais da Poética do filme.

Captura de Tela 2016-06-25 às 14.59.02Rodado em Preto e Branco e inteiramente em formato 4:3, as primeiras sequências já capturam pelo ritmo dinâmico e inventivo. Mas momentos pontuais do filme marcam pela força expressiva e de narratividade: a crise de pânico de Sombra, que é mostrada com eficácia, simplicidade e beleza, e o seu monólogo sobre o cinema mexicano que manifesta uma autocrítica, mas mais ainda, uma visão política sobre a função do cinema.

¡Puto cine mexicano! Agarran unos pinches pordioseros y filman en blanco y negro y dicen que ya están haciendo cine de arte. Y los chingados directores, no conformes con la humillación de la Conquista, todavía van al Viejo Continente y le dicen a los críticos franceses que nuestro país no es más que un nido de marranos, rotos, diabéticos, agachados, ratoneros, fraudulentos, traicioneros, malacopa, putañeros, acomplejados y precoces”.

Sombra e Santos representam jovens de uma geração deslocada das grandes lutas políticas de seu tempo. Mas não são personagens politicamente alienados nem ideologicamente orientados. A ideologia não se revela só pela vontade, dirão alguns que, apressadamente, acusarão o filme de carregar uma mensagem crítica demais à esquerda. Mas, embora o filme não passe ao largo das questões políticas (tem as cenas de assembleias estudantis e de ocupações universitárias mais bem executadas que já vi), incumbe Sombra, poeta, sensível, amante e com crises de pânico, de assumir outras lutas que, para ele, são mais fundamentais naquele momento. Lutas íntimas, que emprestam à sua personalidade o drama da existência desesperada e inútil, ao ponto de temer a loucura, mas capaz de amar, sorrir e enfrentar o mundo. Se Sombra não se identifica com os jargões e com os conflitos dos estudantes grevistas, a sua própria existência transcende o conformismo da contestação daqueles jovens revolucionários impregnados de chavões e ideias de esquerda do século 20 (o filme é ambientado nos anos 1999-2000, no período de greves da UNAM – Universidade Nacional do México). Para Sombra, Ana, a quem ele ama e que é uma das lideranças dos movimentos estudantis, contesta um mundo sem deixar de pertencer ao mundo contestado.

Em Güeros, a crítica política dirigida à esquerda é provocadora, mas é tangencial. A crítica política maior que o filme transmite ataca a violência sistêmica difusa que transforma os jovens, as suas subjetividades, em sombras obrigadas a enfrentar a vida mesma, a vida – como diria Pasolini – existencial, direta, concreta, dramática, corpórea, das pessoas que vivem os impactos das realidades sociais injustas, o “mundo cultural” no interior do qual se exprimem física e existencialmente milhões de pessoas marginalizadas, excluídas, estigmatizadas, social e espiritualmente. Por isso, no filme, jamais ouvimos a música do roqueiro Epigmenio Cruz, que impacta imediatamente todos os personagens que a ouvem e que “poderia ter revolucionado o rock mexicano”, mas a pressentimos sob nossos próprios tons.

Captura de Tela 2016-06-25 às 15.00.12O filme, portanto, participa de um inventário de sensibilidade crítica que, no cinema brasileiro atual, é inexistente. Güeros acerta ao realizar com eficácia a conjunção de tensões estéticas e tensões emocionais, tensões próprias das linguagens artísticas, sem incorrer em experimentalismos formais injustificados, ao passo que logra, com simplicidade narrativa, revelar as nuances individuais de um grupo de jovens, e especialmente de Sombra, sem escorregar em propensões narcísicas.

Em tempo, o longa-metragem ganhou o prêmio de Melhor Filme Estreante em Berlim e o Melhor Filme Latino-Americano em San Sebastian. Por aqui, foi exibido no Festival Internacional de Cinema da Bienal de Curitiba, em 2015.