Brasil e China fakes, Ai Weiwei e cultura marginal nas Bienal (sem concordância)

Captura de Tela 2015-08-06 às 10.24.49Eu ia dizer outra coisa, que envolvia um comentário pensando, paralelamente, a trajetória de Ai Weiwei, artista chinês de forte impacto político e presença nas mais importantes bienais do mundo, com as intervenções dos pichadores brasileiros que, claro, picharam uma igreja na qual dariam um workshop, participando da Bienal de Berlim em 2012 (os mesmos que picharam o espaço vazio da Bienal de São Paulo em 2010). O elo de ligação, a razão de comentar lado a lado (mas apenas pontualmente) esses artistas era: Bienais, política e arte (transgressão e crítica ao sistema).

Mas desisti de comentar sobre isso. A trajetória de Weiwei faz com que a intervenção dos pichadores brasileiros na Bienal de Berlim se esvazie de qualquer importância política e artística, não obstante o discurso dos pichadores.(Há vários filmes sobre ou com Weiwei, um dos que assisti é Ai Weiwei: The Fake Case (2013), documentário de Andreas Johnsen [trailer no Youtube].

A China que Weiwei enfrenta (ora sendo preso e vigiado, ora fazendo acordos para poder existir e resistir) não é tão diferente do Brasil, considerando não a cultura e a arte, obviamente, mas a posição atual dos dois países no capitalismo globalizado. Embora a China seja potência militar e nuclear, e o Brasil ainda não tenha degenerado a esse ponto, embora se esforce muito para isso, ambos os países funcionam meio que como reservas naturais e como escravos disponíveis para a exploração do mundo desenvolvido (é dizer, o domínio do Ocidente em decadência). O trabalho (mão de obra) barato da China e o regime estatal autoritário da economia e da política torna o país competitivo em vários setores produtivos. No Brasil é a exportação de Commodities, tradição histórica mesmo em meio à variação dos ciclos produtivos, que determina o poder econômico e político e seus efeitos e defeitos, seus vícios, por assim dizer, também de tradição histórica, sem desconsiderar os importantes avanços políticos, sociais e econômicos do país. Ai Weiwei, mesmo transitando pelo sistema cultural que lhe permitiu construir um ateliê particular de 1 milhão de euros (que o governo chinês derrubou) e participando de “obras” monumentais como a construção do estádio “Ninho de Pássaro” em Pequim, consegue, através de seu trabalho, sustentar uma crítica mais consistente e profunda dos problemas de seu país do que os pichadores brasileiros que, também convidados para importantes bienais (no caso, a de Berlim), reproduzem a cultura periférica globalizada como se fosse contestação e rebeldia, mas – quando inserida no circuito oficial das bienais – aparece mais como produto comercial calcado no grande negócio da contracultura, que utiliza o inconformismo como vetor, sem com isso subverter concretamente os motivos alegados do inconformismo: injustiça social e o cerco à individualidade libertária. Sem prolongamentos, resumo: trata-se de agitação cultural contra as normas estabelecidas, mas sem ameaçar tais normas, mas antes, condicionando-se a elas – como parte do  show bienal.

Particularmente, eu tendo a endossar sempre as posições libertárias e contestatórias. Mas sugiro pensarmos sobre os extratos das classes produtoras de análises e pensamentos políticos e de ideias artísticas dominantes que operam na China e no Brasil (extratos que são, com efeito, globalizados, mas mantenho o meu superficial cotejo entre os dois países). Tais extratos não têm nada de libertários, sabemos, e, se precisam tolerar estrategicamente um Ai Weiwei, ou mesmo convidar uns pichadores de estética periférica (vejam bem, pichadores, não grafiteiros) para bienais, é porque o sistema não promove a conformidade, mas se sustenta do estímulo ao inconformismo, desde que não ameace suas bases e tendências, mas antes as fortaleça e consolide. Afinal, a propagação da cultura periférica globalizada (funk, hip-hop, grafite, pichação) resulta em expansão de demandas de mercado, convertendo a cultura marginal em moda e integrando-a plenamente no modelo de consumo capitalista, inclusive, industrial e mainstream.

Eu não gosto de muros nem de muralhas, nem em Berlim nem aqui nem na China. Acho boa a participação dos pichadores brasileiros em qualquer bienal. Mas no que se refere à contestação e subversão dos relatos dominantes, são mais eficazes os pichadores que povoam os muros anônimos urbanos e confrontam as muralhas simbólicas, do que aqueles que, para serem alternativos, precisam se incorporar – de bom grado, ainda que agressivamente.

Abaixo, na Bienal de Berlim, Djan Ivson, ou Cripta Djan, picha o curador da Bienal em meio à pequena confusão. Veja matéria na Folha.

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Camille Paglia e Nicole Brenez – controvérsias: Arte, Star Wars, internet e arqueologia do cinema

Captura de Tela 2015-01-14 às 12.59.12Interessante. Camille Paglia é controversa intelectual “ganhou notoriedade analisando as representações da arte na cultura ocidental e suas inevitáveis associações com política, sexo, religião e sociedade”, e que se diz também preocupada em “absorver a história completa do cinema”. Paglia diz que ‘Star Wars’ é a última obra-prima da História da Arte (entrevista a O Globo, out/2014).

Já Nicole Brenez, que tem sido reconhecida como uma das vozes mais influentes da cinefilia contemporânea, considera Star Wars “péssimo”. São dela, Nicole, as palavras:

“É um dos casos mais estranhos da história do cinema é George Lucas. Porque ele fez uma obra-prima absoluta, THX 1138, que é um dos filmes mais maravilhosos e radicais de todos os tempos; o filme mais visionário, crítico, plasticamente e formalmente perfeito de todos os tempos. E então, ele também foi aquele que matou toda a criatividade dos anos 1970 fazendo Star Wars e outros filmes péssimos. Me pergunto como ele lida com sua própria consciência, sendo a melhor e pior coisa que já aconteceu em Hollywood. Evidentemente, THX 1138 foi feito de forma independente, com a energia criada por Coppola para inventar maneiras economicamente independentes de criar filmes. De qualquer forma, é bastante estranho: como você pode fazer Star Wars depois de fazer aquilo?”

(Em entrevista ao site Cinética, em fev/2014).

Arqueologia cinematográfica

Interessante também notar a relação da produção de cinema que acontece de todas as formas na internet com o pensamento das duas controversas críticas.

Camille: “Adoro o YouTube e uso o site para assistir a clipes novos e antigos, além de virais feitos por jovens engenhosos do mundo inteiro”.

Nicole: “Hoje, acho que a principal tarefa de um historiador do cinema, talvez a mais emocionante e exigente, é tentar ver o que está realmente acontecendo na internet”, comenta ela, pensando no cinema direto político que se manifestou na difusão de imagens da Primavera Árabe, por exemplo, com formas estilísticas desconhecidas. E completa “Eu tenho certeza que existem tesouros cinematográficos que aparecem na internet todos os dias, em todos os lugares”, criticando que 99,9 % da análise fílmica é dedicada a filmes do circuito comercial e, por isso, defendendo uma arqueologia de tesouros voltada para a produção que encontra na internet a sua vazão.

Interessante o que nos reserva o século 21 que, aliás, precisa começar logo…

A arte de viver para as novas gerações

Minha fala na mesa “Fazer multidão, devir instituição”, no seminário QUEREMOS, apresentada no Rio de Janeiro, em 14/11/2014. Publicada primeiro no sítio da UniNômade.

Enquanto a esquerda, ou as esquerdas estão reconstruindo as suas identidades fragmentadas; as iniciativas autônomas e informais — não institucionalizadas ou institucionalizáveis em si mesmas — antecipam modelos do porvir e reimaginam pactos sociais: as novas instituições do comum em devir.

Captura de Tela 2014-11-29 às 12.33.12As competências da política frente às exigências do real

Há várias multidões na multidão, sabemos, e talvez o conceito de multidão traga em si uma crise, especialmente quando aplicado ao Brasil, e mais ainda ao Brasil de agora (um agora que se delineia do lulismo para cá), um país em explosão liberal (ideológica) cujo pacto social cristaliza, no verniz de nossa história, seus dilemas, inquietações e limites. Se as nossas estruturas institucionalizadas – sobretudo políticas – não correspondem adequadamente às exigências da multidão, a multidão não consegue modificá-las adequadamente em relação às suas variadas e múltiplas exigências: as últimas eleições presidenciais, tão conflituosas, revelam e refletem esse fracasso, tornando mais agudas e gritantes as contradições na esfera política institucionalizada. É sobre esse fracasso que reflito aqui, enfocando, contudo, sua extensão, o alcance de sua vitalidade (sobretudo nas ruas, nas jornadas de junho) e seus efeitos que constituem uma (bio)política com formas próprias.

Segundo Albert Camus, autor que me orienta nesse texto, “toda crise histórica termina pelas instituições”, e cá estamos, num ciclo de debates, tentando entender a crise (sempre atual) não tão distantes da esperança de que os anseios que ela engendra e reflete se sintetizem numa força comum cujo êxito seria alcançar algum grau de efetividade política no sistema dado, o quanto antes e com eficácia, força pensada nos extratos das classes produtoras de análises e pensamentos políticos.

Em outras palavras, crise é riscos, e instituições são formas de controlar os riscos, inclusive para realizá-los politicamente na história. O que vimos nas ruas no auge das jornadas de junho? Impotência e potência, coesão e difusão, sucesso e fracasso, coerência e contradição. – Junho foi a um só tempo – penso (e essas leituras são parcialmente sobrepostas): “ondas dionisíacas de catarse política” (alguém disse isso e eu concordo); dissidência e revolta como uma forma de embriaguez dos corpos nas ruas; e também um esforço multitudinário de construir (ou constituir, ainda que enquanto zonas temporárias e autônomas) novos espaços de disputas, existências e exigências políticas. Nessa última leitura predominaram, e resistem predominando, os anseios de novos sujeitos políticos (quase sempre desvinculados das práticas políticas clássicas), que buscam tecer novas tramas sociais, compor novos emaranhados de interações descentralizadas, não-hierárquicas, emergentes. São, antes de serem projetos, ímpetos coletivos que antecipam modelos do porvir e reimaginam pactos sociais. O real, que faz exigências, está, ao mesmo tempo, em disputa e em construção – e em desconstrução, portanto – é um real enquanto devir propriamente revolucionário.

Captura de Tela 2014-10-23 às 11.58.12Recorrendo ao campo de minhas vivências propiciadas pelo fazer cinema independente, relato uma situação ocorrida logo depois que recebi o convite para participar deste Colóquio. Nessas eleições houve, na Bahia e em vários estados, uma mobilização de apoio à Dilma que chamaram de “O Cinema baiano está com Dilma”. Quando eu vi, fiquei muitíssimo incomodado. Questionei, através de um grupo no Facebook, os riscos de tal declaração que eleva o “cinema baiano” à condição de sujeito eleitoral. Não seria melhor dizer “cineastas baianos com Dilma”, mostrando a lista de assinaturas? (lista que até rolou, e foram muitas assinaturas). Meu questionamento foi ignorado olimpicamente, mas em privado, algumas pessoas falaram comigo e disseram que essa “instituição” cinema baiano era passageira, que eu compreendesse o momento eleitoral delicado. Eu já tinha compreendido, é claro. Um grupo institucionalizou temporariamente o cinema para que o cinema assumisse a condição de sujeito capaz de tomar posição “contra o retrocesso” e/ou em defesa de si mesmo, supostamente. O cinema, vejam bem, não uma entidade, uma associação, não, mas o próprio cinema, ainda por cima, baiano.

Nem tudo pode ser ou precisa ser institucionalizado, portanto, para ser eficazmente político. Nem tudo que fazemos ou pensamos politicamente é institucionalizável, embora muitos ações derivadas possam servir ou se ligar a instituições (míticas, políticas, éticas etc). Compreendi a ação daqueles que se fizeram a voz do “cinema baiano”: neste momento, na esfera da Cultura institucional no Brasil, existe uma relação perigosa entre a força do mercado em crescimento (e do financiamento governamental dedicado ao cinema em crescimento) e a falta de capacidade de implementar políticas eficazes, que contem a nossa história e legitimem nossas expressões e manifestações simbólicas, que, também, aconteçam com a insubmissão formal ou política e com a autonomia inerente à criação. Então, se há riscos a correr, nem sempre os caminhos a serem seguidos se esclarecem por si mesmos quando se trata de contextos eleitorais do momento. O risco do devir instituição é passar a combater os riscos que não interessam. Esse foi só um exemplo.

Esse impasse no âmbito cultural (das demandas públicas institucionalizáveis que necessitam se atualizar in concreto), de certo modo, se relaciona com o do campo político, ou se dá no interior dele. Só que no campo já demarcado da cultura institucional, trata-se de lidar com o já organizado, inclusive com os mercados. No caso da política, essa prática que envolve também as instituições (inclusive as instituições em devir), reclama, meio que ciclicamente, um salto histórico. E se a aclamada crise de representatividade é marcada também pelo anseio da multidão por novas formas e métodos de participação política, é nessa crise mesmo que nós encontramos tanto as dificuldades quanto as possibilidades todas, e as dificuldades saltam às vistas frente às possibilidades, porque é o que nos enfrenta primeiro (mas isso não nos desanima nem um pouco, é claro). De todo modo, o momento é propício para um salto: hora de aproveitar o gradual descrédito das totalidades e o crescente abandono dos grandes relatos modernos.

Já que se trata da necessidade de um salto histórico no âmbito da política, no sentido de fazer acontecer aquelas novas tramas sociais frente às exigências dessas realidades em disputa e em transformação, o meu ponto é:

A gente deve olhar para o que se está organizando e se constituindo frente a nós mesmos, com a gente no meio, e às vezes até à revelia de nós (nós como agentes imbricados nesse afã de pensar e tecer novas tramas sociais e políticas); precisamos prestar atenção ao que se está organizando e constituindo agora nas escolas, nas favelas, nos shopping centers, nos escritórios, nas praias em dias de semana, nos terreiros de candomblé e de umbanda, na casa da esquina onde rolam encontros semanais de capoeira, ou festas improvisadas, em suma, em lugares onde quer que haja gente vivendo sob as condições impositivas do sistema, se virando para fazer acontecerem as suas tramas, demandas coletivas e ações. O sistema requer muito da vida dessas pessoas que fazem esses acontecimentos, mas por isso mesmo – como disse Deleuze – quando a vida é objeto do poder, ela passa a resistir ao poder. Esses acontecimentos são, ao mesmo tempo, resistência e vanguarda em devir biopolítico.

Captura de Tela 2014-11-29 às 12.36.50É desse movimento de acontecimentos clandestinos em relação ao que é politicamente instituído que surgem as organizações, e não de debates nem de ciclos de conferências – embora esses eventos sejam imprescindíveis para o pensamento, a avaliação, e mesmo para a organização de novas institucionalidades e forças políticas constituídas. Surgem as forças motoras transformadoras mais desses acontecimentos do que daqueles que aplicam jargões e práticas de linguagens políticas estabelecidas. Mas o que há, o que está em devir, é um amplo movimento clandestino que apenas se agita e que nem sempre é visível (quem previu os rolezinhos?). Claro que tais movimentos não estão instituídos no sentido organizacional definido, nem podemos prever ou calcular os seus impactos culturais e sociais em termos de organização política, justamente por essa clandestinidade difícil de historiar e de perceber porque não estão fazendo parte de certo barulho imediato, nem se apoiam em modelo algum de nossas estruturas políticas clássicas nem nos métodos comuns de caráter reivindicatório.

Claro que essa constituição clandestina do comum surge apoiada primeiro nas realidades mais concretas e nada clandestinas, como as demandas profissionais, as dificuldades da comunidade, da favela, ou do bairro, da escola, as lutas por terra e por moradia, por direitos básicos constituídos, mas se estende até às necessidades do sambão semanal na praia ou numa praça da periferia, do churrasco comunitário na praia, nas conversas durante o tempo “perdido” nos congestionamentos dentro de ônibus lotados, espaços, enfim, onde transparecem a existência das pessoas e de sua relação com o mundo e entre elas mesmas, da substância da vida cotidiana. Quando esses sujeitos se organizam por alguma razão, o fazem de forma viva, sem nenhum romantismo ou ideal. Para essas pessoas, a política deve ser submetida a essas realidades vividas, à vida mesma, e a seus interesses práticos. Hegel falou algo de uma “tecedura silenciosa do Espírito”, expressão que é abstrata aplicada aqui, não deve se restringir a isso que falo, mas serve de referência. E esses interesses práticos, em termos de devir, nunca vêm sozinhos, nunca é sem consequência política. (Cabe, todavia, esse parêntese: é evidente que esses movimentos clandestinos não substituem nem depõem contra os movimentos organizados em lutas efetivas (como MSTS, MST e outros) cujos impactos e resultados também nunca se resumem – nem se reduzem – às suas demandas formais).

Essa viva movimentação clandestina está acontecendo agora, em muitos lugares, sobretudo nas cidades e nas metrópoles. Muitos já a vivem, desde o campo micropolítico, até os campos estético, erótico etc. em iniciativas que são concomitantes e paralelas, mas nem sempre se complementam ou se encontram, porque ainda não são integradas nem definidas, tampouco são articuladas em torno de uma ideia institucionalizável em si mesma.

Mas essa movimentação clandestina é sobre poder. No âmbito da cultura, desde as ressignificações da cultura hip-hop e do grafite, até os bailes funk, os grupos de capoeira ou maracatu, as primeiras raves, os já mencionados rolezinhos, tudo isso é sobre poder: subvertem lógicas de ocupação dos espaços urbanos, de determinações simbólicas de classes, de códigos sociais de controle, de descentralização de poder (as raves, por exemplo, reivindicavam o lema punk contra estrelas do rock, baseando sua música trance na figura do DJ e no remix, subvertendo o estrelismo de um artista e a instituição da autoralidade – embora depois tenha também gerado suas próprias estrelas).

Em suma, enquanto a esquerda, ou as esquerdas, estão reconstruindo as suas identidades fragmentadas, as coisas estão efetivamente acontecendo. Tudo muito desarticulado, é verdade, mas tudo funciona junto, ainda que de uma forma não de todo conhecida, a ser desvendada, inventada, fortalecida processualmente. E sem olharmos para isso, esses acontecimentos vivos que transcendem as estruturas e os modelos clássicos, não podemos contribuir com organização nenhuma.

Perspectivas

Considero o termo esquerda aqui a partir do lema que a define de forma geral: “um outro mundo é possível”, acrescentando que esse outro mundo não deve ser mais só possível, porque é necessário e inevitável, diante das tendências de desastre do sistema, seja ambiental, social e/ou político.

A esquerda, tradicionalmente, sempre formula um ideal para os excluídos, os malditos do corpo social, os pobres, os miseráveis, despojados do mundo produtivo que agora implica também o mundo simbólico. É previsível que a esquerda, historicamente falando, também tenda a submeter o indivíduo (ao ideal) e dele fazer um sujeito, ou mesmo fazer da multidão um sujeito, no sentido amplo.

Assim, vamos considerar que algumas bases no anseio de transformação e empoderamento político una a multidão, por exemplo: submeter a Economia à Política. Que formulações de realidades emergentes ou não devem conduzir a organização das forças políticas? Vamos pensar ainda que a multidão em vias de organização aprove como ponto de partida a noção de política como uma Força que serve de antídoto contra a violência que é o capitalismo. Que práticas concretas devem surgir dessa noção? O que seria então esse mundo do comum baseado numa luta de tão amplas possibilidades? E ainda que encontremos um vetor de comunhão, os povos ou grupos, cada um, podem aplicá-lo de formas adaptadas às suas próprias condições e necessidades e mesmo visões de mundo. Por exemplo, o que une, pensando em políticas institucionais e ações concretas, os guarani-kaiowá e os favelados da maré ocupada militarmente? Os ribeirinhos do Madeira de Jirau e os quilombolas do Rio dos Macacos? Além, claro, dos diversificados e complexos estratos da classe média urbana? – de certa forma, a gente não mapeou tudo, mas vimos que isso – essa convergência – aconteceu em certo nível nas manifestações. Mas e nas possíveis instituições?

Faço um adendo: a crítica usual do capitalismo e de nossa história política, embora seja uma crítica imprescindível e tantas vezes acertada, pode subestimar problemas mais essenciais (e aí precisaríamos avaliar e recompor aquelas exigências do real). Agora, em meio a tantos protestos, ações políticas e análises intelectuais e acadêmicas, ninguém sabe direito quais são os meios de pelo menos coibir aquelas tendências de desastre do sistema. Digo isso porque a forma como nos enxergamos (como classes? Ou como espécie? Como etnia? Ou como indivíduo em sociedade?) é fator determinante, não só para a forma e objetivos das lutas, mas para a identificação ou eleição dos problemas mais profundos, mais essenciais, a serem colocados e enfrentados.

Então, Institucionalizar o quê e como? Não estou certo sobre se o caminho é um partido, embora, talvez, um partido precise acontecer. Há quem diga, por exemplo, que o Podemos espanhol é fichinha perto do nosso partido movimento dos anos 80, o PT, que deu no que tem dado – mas sabemos que há controvérsias nisso também, pois trata-se de contextos substancialmente diferentes em vários campos de lá para cá no tempo e no espaço.

Seria eficaz, a princípio, constituir um movimento de movimentos capaz de assegurar a continuidade das lutas das multidões (inclusive aquelas que se realizem através de partidos); movimento, portanto, cuja maior competência seria a capacidade de incorporar sempre as novas experiências continuamente produzidas pelas multidões, em todos os lugares, instituindo estruturas contra a burocratização e a centralização de poder, e impedindo que seus mecanismos de luta sejam utilizados para a subida ao poder de novas minorias. (Martin Bubber, em “Caminhos da Utopia”, põe em tese correntes do socialismo utópico ou libertário, fundamentando a proposta de subtrair da política, o mais possível, as “funções do dirigir”, que devem ser limitadas às exigências circunstanciais, para que a direção não se converta em dominação. Não à toa, Bubber, enquanto pensador, estava mais interessado nas relações entre as pessoas do que em soluções institucionais).

Movimentos que, enquanto poder constituinte, – e aí eu vejo a razão da institucionalização em vários níveis – possam pensar e realizar estratégias efetivas para se contrapor a políticas localizadas efetivamente impostas (ou em vias de imposição) pelo poder constituído, quando tais políticas desvirtuam das demandas do comum, da multidão. Ou seja, para o enfrentamento teórico e prático dos abusos e injustiças impostas pela violência do Poder. No mais é uma luta pela construção de um espírito comum que se orienta pelo aprofundamento e radicalização da democracia, e valoriza a autonomia e autodeterminação dos indivíduos, grupos e povos. Tudo isso em meio ao capitalismo e à mitificação da democracia, que se expressa na democracia de mercado oligárquica (J. Rancière) e se constitui no poder do estado republicano, expressão mesma da dominação de classes.

Captura de Tela 2014-11-29 às 12.40.01O papel social das pequenas insurreições ou de iniciativas cotidianas de resistência localizada atestam as possibilidades contínuas de sínteses transformadoras que escapam dos escatologismos históricos, ligando-se mais aos ciclos míticos. É tarefa de mobilização permanente que, em si mesma e por seus efeitos e caminhos, combate novas burocratizações enquanto força autônoma, temporária e ativa, cujos resultados são aquelas reimaginações de pactos sociais – nem sempre prescindindo de rebeliões, nem sempre aderindo à revoluções historicistas. É devir não determinado, nem determinista – devir multitudinário que, ao interpretar, perceber e agir sobre o real – produz realidades.

A tarefa das lutas é permanente, portanto. É tarefa de Sísifos, recorrendo à imagem de Camus. Ou, recorrendo ao imaginário afroíndio, é tarefa exusíaca, de Exu, orixá cujo nome iorubá se refere etimologicamente à Esfera, simbolizando movimento. Em tempo, Camus diz que devemos imaginar Sísifo feliz. Exu a gente sabe como é.

A Caverna dos Sonhos Esquecidos, de Werner Herzog

O filme é um fascinante comentário de um experiente e inquieto cineasta que, de dentro da caverna, nos lembra que não nos é dado conhecer com absoluta coerência os derradeiros fundamentos da vida: resta-nos a imagem do mundo, seja ela descoberta ou inventada.

Em 1994, exploradores franceses descobriram uma caverna inexplorada na região do rio Ardeche, sul da França, que se revelou uma das mais importanes descobertas da história cultural da humanidade: a caverna estava repleta das mais antigas pinturas rupestres que se tem notícia, datadas de mais de 32 mil anos. Vencedor do National Society of Film Critics Awards de 2012 na categoria de Melhor Filme Não-Ficção, A Caverna dos Sonhos Esquecidos (Cave of Forgotten Dreams, 2010), explora minuciosamente a Caverna Chauvet, cujo nome homenageia o explorador Jean-Marie Chauvet, líder da expedição que resultou na sua descoberta.

Werner Herzog nos conduz ao interior da caverna, cuja narração em off do próprio diretor ressalta a importância da caverna para a cultura, contextualiza a história de sua descoberta e relata as dificuldades que ele e sua pequena equipe enfrentaram para conseguir autorização para filmar o seu interior, dadas as rigorosas exigências e precauções impostas pelas autoridades francesas e pelos estudiosos responsáveis pelo lugar, com fins de proteger as suas frágeis e belas formações geológicas e salvaguardar a integridade dos desenhos.

 A Caverna dos Sonhos Esquecidos nos dá a chance de conhecer um lugar praticamente inacessível, cujo grande valor arqueológico e a importância simbólica da caverna para a história da cultura humana impressiona e impacta, atrai e fascina, sobretudo com o uso delicado e vivo da tecnologia 3D: passeamos pela caverna com a nítida impressão de quase podermos tocar as suas paredes. Um espetáculo visual que produz a um só tempo sentimentos de sutileza e enlevo.

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Além da caverna de Chauvet, Herzog faz digressões para outras cavernas relacionando as pinturas e artefatos encontrados em outros lugares e em outras épocas pré-históricas, participando a nós, espectadores, os novos antiquíssimos segredos que esntusiasmam historiadores e arqueólogos. A caverna resgata sentimento cósmico que requer uma História que possa ser apreendida com a vista e com o espírito, história que principia no começo do mundo. Um arqueólogo diz que é preciso, depois de explorar a caverna por um peírodo, se distanciar dela e passar a viajar para ter contato com outras culturas, a fim de apreender a experiência da caverna a partir de outras visões cósmicas do mundo, algumas muito antigas ainda vivas em certas partes do planeta. Outro estudioso conclui, diante do sentimento mágico que experimentamos unidos a nossos ancestrais pela “cápsula do tempo” que é a ceverna, que não somos homo sapiens, mas antes homo spirituallis, espíritos  que vêem o mundo como a expressão de potências misteriosas, onde o sentir é mais presente do que o saber.

Em dado momento, dentro da caverna de Chauvet, Herzog pede silêncio. A silenciosa grandeza da caverna é sentida transpondo infinitas distâncias no tempo, mescla brutalidade e refinamento, e sua força expressiva não deixa de acender em nós a sensação de que o que hoje se produz em arte é impotencia e mentira. Herzog também valoriza a música (rústicos instrumentos musicais são achados e remontam a mais de 30 mil anos). As artes são unidades vitais, e o silêncio, as pinturas e a música possível, juntamente com a História que carregamos em nós torna a experiência do filme válida, não para o nosso senso crítico feito de nosso sentido cultural, mas para o nosso puro sentimento.

Captura de tela 2013-03-04 às 10.32.20No filme, o tempo se torna a essência e o símbolo máximo da distância entre nós e aqueles primeiros artistas. Mas é o próprio tempo, no entanto, que nos descortina toda aquela energia, revelando algo incorpóreo, indescritível, capaz de movimentar o que é imovel, como algumas imagens na caverna que sugerem a impressão de movimento. A Caverna dos Sonhos Esquecidos, ou o olhar de Herzog sobre ela, nos revela um receptáculo da expressão da história e da cultura humana, situado fora do tempo, ou ao menos que representa o tempo em nós de forma simbólica. O filme é um comentário de um experiente e inquieto cineasta que nos lembra que não nos é dado conhecer com absoluta coerência os derradeiros fundamentos da vida: resta-nos a imagem do mundo, seja ela descoberta ou inventada.

A Caverna dos Sonhos Esquecidos (2010)
Diretor Werner Herzog
 Roteiro Werner Herzog
 Fotografia Peter Zeitlinger 
Montagem Joe Bini, Maya Hawke
 Música Ernst Reijseger 
Produtor Erik Nelson, Adrienee Ciuffo 
Produção Creative Differences, History Films, Ministère de la Culture et de la Communication de France.

Palacete das Artes promove mais uma edição do projeto Cinema no Palacete

Palacete das Artes promove mais uma edição do projeto Cinema no Palacete

Obra “O Baile no Moinho de La Galette”, de Auguste Renoir, analisada em um dos mini-documentários

O Palacete das Artes promove mais uma edição do projeto Cinema no Palacete, que mensalmente promove um diálogo entre o cinema e as artes, entre os dias 11 e 14 de dezembro, no auditório do Palacete.

Dessa vez o tema selecionado vai agradar os amantes e estudantes de arte: serão exibidos três minidocumentários intitulados “A vida Secreta de uma Obra-prima”, série produzida pela BBC que apresenta e disseca obras de arte mundialmente conhecidas, analisando o artista, o modelo, a época em que foi criada e outros detalhes das peças. Os documentários ainda revelam os contextos que geraram essas obras, como revoluções políticas, fugas de guerra, choques de egos, derrocadas financeiras e ataques com facas e ácidos.

No primeiro dia de evento, será exibido o minidocumentário “O Baile no Moinho de La Galette de Auguste Renoir – 1876”, no segundo dia, “Os Girassóis de Vicent Van Gogh – 1889” e no terceiro “Um Dimanche Après – Midi à L’île de La Grande Jatte de Geoges Seurat”. Já no último dia, serão reprisadas as três exibições às 1h, às 16h e às 17h. A entrada para o evento é gratuita.

Notícia reproduzida do blog da Diretoria de Museus (DIMUS).

O Palacete das Artes fica no Bairro da Graça, em Salvador.

Nota: Amantes Constantes (Les amants réguliers), de Philippe Garrel (França, 2005)

Les amants réguliers revela as relações de jovens com o amor, a arte e o anseio de liberdade, na França de 1969, no sterteur do emblemático maio de 68.

François (Louis Garrel) é um jovem poeta que, junto com os amigos todos ligados à militância política, à arte e ao ópio, se apaixona por Lilie (Chotilde Hesme), e vive com ela a experiência de existir em meio à paixão e a um futuro ameaçador que se anuncia na incerteza de se poder realizar revoluções íntimas e coletivas.

Não tão distante das complexas questões que dilaceram o pensamento da esquerda atual, um dos personagens mais ativos nas ruas pergunta “como é possível fazer uma revolução pelo proletariado, apesar do proletariado?” Os sindicatos parecem ter mais medo da revolução do que os patrões, e os próprios jovens militantes não sabem ao certo que mundo viria a nascer do anarquismo que tanto os atraía.

O diretor  Philippe Garrel lançou reflexões sobre o autoritarismo intrínseco de uma sociedade organizada e referenciada pelo Estado, agenciando as tensões entre o indivíduo e a sociedade, entre o histórico e o circunstancial, entre a vida mesma e a potência de viver. François, o jovem poeta, enfrenta um julgamento militar por ter se recusado a alistar-se no Exército. Em sua defesa, o advogado argumenta que “há outras maneiras de servir ao orgulho e à honra do país”, implorando aos militares que não matem um gênio criador, um possível grande poeta, antes mesmo de nascer. Um militar contrapõe dizendo que Baudelaire e Rimbaud deviam ter sido presos. Philippe Garrel polariza, nesse caso, entre o autoritário e o libertário, entre o poeta e o militar. Mas, para o bem da riqueza narrativa do filme, mobiliza – no todo – um teatro de palcos múltiplos.

As preocupações dos jovens companheiros aumentam quando Antoine, o burguês que em nome do ópio ajuda a sustentar a todos, decide ir embora para o Marrocos. Tudo começa a se fragmentar, e Lilie é capturada, por assim dizer, pela oportunidade de ir para a América… trabalhar. Aliás, o filme todo em preto e branco, e com um estilo de enquadramento que suprime espaços, sugere uma opressão constante (mais constante do que o amor). Tudo que nos jovens quase desesperados não pode ser assimilado pelos interesses do sistema, deve ser sufocado, solapado, ou arrancado à força, seja pela polícia ou pelo virtual medo do futuro.

Um filme de belezas constantes, mas severo em seu ritmo e em seu drama. Sob o risco de ter me deixado atingir no meio do coração, afirmo que Les amants réguliers anuncia melancolicamente, remetendo à acusação de Albert Camus, que o tempo da rebeldia passou e deu lugar ao tempo dos revolucionários. François, diante do fracasso vivo de seus anseios de liberdade e amor, dorme a sua derradeira “noite dos justos” – ele se deixa morrer.

Rivers and Tides: o tempo e a água

Em Rivers and Tides: Andy Goldsworthy Working With Time (2002, Alemanha), o realizador Thomas Riedelsheimer tematiza a compulsão de um artista recluso em trabalhar com as forças naturais. O artista produz trabalhos artísticos efêmeros em cenários e cisrcuntâncias naturais, consciente de que as forças naturais irão silenciosamente destruí-los. O filme constrói uma atmosfera reflexiva e criativa: o que o homem cria, o tempo e a natureza apagam. Arte e documento que evocam fortes representações!

Excerto de Rivers and Tides: Andy Goldsworthy Working With Time:

insustentável leveza na rua

Na falta de espaços, criar as “ruas” no tempo, ocupando imaginários poéticos. A cidade dos carros ignora e mata o que é leve e frágil, como um balão amarelo que resiste enlevado nos ventos.

“insustentável leveza na rua”, criação, montagem e edição de Camele Queiroz. Câmera de Fabrício Ramos.

PAIDEIA – Arte movimento: http://paideiafilmes.wordpress.com

sinestesia do terror

Quantas bombas atômicas já foram detonadas em nosso pequeno planeta?

Jamais esqueceremos de Hiroshima e Nagasáki. Depois de 1945, bombas atômicas não foram usadas em guerras novamente. Na década de 50, entretanto, vários experimentos e testes para desenvolvimento de novas armas foram realizados por vários países. Durante os anos da guerra fria a aplicação da tecnologia nuclear alastrou-se: entre 1945 e 1998 foram detonadas 2.053 bombas nucleares em nosso próprio planeta!

O artista japonês Isao Hashimoto converteu, em 2003, tal estupefação numa diegese audiovisual, uma experiência estética que traduz o insano ímpeto de destruição que conformou a segunda metade do século nuclear e petroquímico, que ainda não terminou.

A obra “1945 – 1998″ revela um mapa animado que começa mostrando uns poucos pontos coloridos juntamente com efeitos sonoros, cada um dos quais representa uma explosão, obedecendo o ritmo histórico das detonações. Somente os EUA detonaram mais de mil bombas! A extinta União Soviética, mais de setecentas. Participaram também da insanidade a França, a China, a Grã-Bretanha, a Índia e o Paquistão. O resultado é uma sinestesia do terror:

[blip.tv http://blip.tv/play/AeaDFAI?p=1 width=”620″ height=”360”]


A atmosfera trágico-rítmica da obra de Hashimoto resgata um vetor talvez primordial da arte: a reflexão simbólica diante do absurdo, que neste caso, transcende a angústia íntima da consciência da morte e atinge o espanto consciente do desastre social politicamente organizado.

Os países que comandam o negócio da guerra são também os que zelam pela paz no Conselho de Segurança da ONU. Os países que referenciam em seus discursos as democracias de mercado não resolveram os problemas mais simples do mundo, como a fome, a miséria, a degradação ambiental e a paz.

Jorge Luis Borges, que tanto admiro, dizia que nós ‘somos todos fragmentos de um Deus que, ávido de não ser, se autodestruiu’. Cuidemos para que a nossa arrogante avidez não despedace uma vez mais o que restou desse deus que somos nós, os fragmentos.

Tongues Untied: arte, documento e desafio às representações sociais sobre raça e sexualidade

Marlon Riggs

Em 1989, Marlon T. Riggs filmou Tongues Untied (EUA), um ensaio aberto e construtivo sobre raça, gênero e identidade sexual, estruturado por meio de uma série de performances e narrativas elípticas e perturbadoramente urgentes. Riggs, jornalista, educador e poeta, transmite – rompendo todas as tradições da linguagem – o que ele e outros negros e gays como ele vivenciam crescendo em uma sociedade homofóbica e racista.

Sem argumento ou jogo afirmações, Riggs conduz o filme construindo elegantes e intensas performances, desde um rap até à angústia da perda de amigos para a AIDS; do relato de uma drag queen triste e solitária que narra histórias de agressões contra homossexuais até um clube gay de brancos que recusam a entrada de um negro. Tudo a partir de movimentos do corpo, dança, monólogos e conversas de rua.

O filme recebeu algum financiamento de departamentos de fomento às artes do governo dos EUA e causou furiosas reações de conservadores por conta do uso do dinheiro dos contribuintes. Em julho de 1991, a PBS exibiu o filme e gerou xingamentos e controvérsias entre seus assinantes – um terço deles manifestou com furor a recusa de executar o filme.

Marlon Riggs morreu de AIDS em 1994, aos 37 anos. Em sua abreviada trajetória deixou um breve legado – sendo o filme o seu último testamento – que até hoje constitui um desafio às normas sociais, especialmente sobre representações de raça e sexualidade.