um encontro inesperado com o sagrado e o mistério (prévia)

O resgate do tema de um curta universitário que o realizador gravara dez anos antes o coloca em busca do reencontro de uma história. Fazer o filme se torna um encontro inesperado com o sagrado e o mistério.

[vimeo https://vimeo.com/96148297 w=570&h=320]

Em 2003, fui pela primeira vez na vida num terreiro de candomblé: eu estava fazendo um filme sobre a repercussão das mortes, em dias imediatamente consecutivos daquele ano, de um conhecido Pai de Santo de Ilhéus, o Pai Pedro, e do Bispo emérito da cidade, Dom Valfredo Tepe. Fui a Igrejas e depois fui ao Terreiro de Odé, a casa de Pai Pedro, onde o babalorixá tinha sido assassinado. Cidade chocada. Terreiro de Luto, não pude entrar nem gravar nada. Era um vídeo universitário., de viés político: buscava evidenciar, a partir da repercussão das mortes do babalorixá e do Bispo, a marginalização do Candomblé frente a oficialidade dedicada à Igreja por parte dos poderes institucionais, imprensa, sociedade.

Dez anos se passaram. Em 2013, resolvemos retomar o tema e fazer um outro filme partindo do mesmo tema, já em outro contexto, passado o impacto inicial que a cidade sofreu com a perda de dois de seus ícones religiosos.

Eu e Mel resolvemos, então, levantar recursos para viajar de Salvador até Ilhéus. Iniciamos uma campanha de financiamento coletivo através da internet e conseguimos dinheiro para custear a viagem, e também apoio de amigos na forma de trabalho voluntário (Juliana Freire, produtora, viajou conosco) e de hospedagem solidária (a amiga Lú nos ofereceu todo o conforto). O cineasta Henrique Dantas emprestou equipamento de áudio, e a DIMAS – Diretoria de Audiovisual e Multimeios da Fundação Cultural da Bahia emprestou equipamento de iluminação, através do Núcleo de Apoio à Produção Independente.

Decidimos ir a Ilhéus sem pesquisa prévia, passar lá uma semana, câmera na mão, buscando reencontrar a história. Eis que a história esperava por nós. Lugares inesperados, improvisos, sentimentos: a busca do filme faz surgir novos acontecimentos, novas experiências. Filmar o curta “As Cruzes e os Credos” foi ir a um encontro inesperado, mas no fundo, secretamente esperado por cada um que participou desse encontro. Mas um filme é um filme, que fale por si.

A ideia do filme é provocar uma reflexão através de nossa própria experiência de fazer o filme. Uma reflexão que envolve as raízes de nossa cultura afroíndia, o compromisso dos adeptos com o Sagrado, e o lugar do cinema, ou de um certo cinema.

Nossos agradecimentos a todas e todos que confiaram na proposta e apoiaram direta ou indiretamente a realização do filme, que segue em processo. A prévia é uma amostra que sugere os caminhos do nosso trabalho.

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As Cruzes e os Credos não pára na encruzilhada: uma palavrinha

Enquanto esperamos que o Governo da Bahia repasse os recursos atrasados conquistados através de edital público para um outro projeto, vamos fazendo um filme através de apoio coletivo

cartaz último 2Desde 26 de outubro mobilizamos uma campanha para financiar parcialmente o nosso curta As Cruzes e os Credos. Ontem, dia 20, encerramos formalmente o período de captação de recursos: alcançamos a meta.

Trata-se de um valor bem pequeno quando o relacionamos à produção cinematográfica – R$ 1.200,00. É que nosso objetivo não é questionar os meios ou modelos de produção (ainda que o façamos), mas pontualmente viabilizar a nossa viagem de Salvador para Ilhéus, onde o curta será filmado, experimentando uma certa subversão do uso das redes, em especial do Facebook, ambiente que concentrou nossos esforços. Todo o trabalho da equipe e o acesso aos equipamentos não entraram na conta, obviamente, mas estão garantidos.

O curta, que será dirigido por mim (Fabricio) e por Camele Queiroz, trata de nossas relações com o Sagrado, o místico, a História e a Política, partindo de dois eventos que marcaram a cidade de Ilhéus/Bahia, em 2003: as mortes, em dias imediatamente consecutivos, de dois ícones religiosos da cidade, um da Igreja Católica, outro do Candomblé, um de “morte morrida”, outro de “morte matada”. Um Bispo, um Pai-de-santo. O Bispo era Dom Valfredo Tepe, o Babalorixá era Pedro Farias, o Pai Pedro.

Além dos patrocínios individuais, tivemos o apoio do CUAL – Coletivo Urgente de Audiovisual, grupo que realiza cinema e o debate sobre cinema independente através de uma dinâmica colaborativa e tem alcançado bons resultados. E do Cineclube Socioambiental Crisantempo – Bahia, que incluirá o filme em sua programação no ano que vem, junto com outras realizações do Bahiadoc. “As Cruzes e os Credos” será mais uma realização do Bahiadoc – Arte Documento.

Em tempo, salientamos a importância das políticas públicas de fomento à Cultura, dos editais públicos de Cinema e da necessidade de se consolidar o Cinema – o bom cinema feito no Brasil – também como indústria e mercado, para que nosso cinema possa ocupar espaços tomados hoje por oligarquias corporativas.

Inclusive, aguardamos a liberação de recursos conquistados através de edital estadual que não foram repassados: trabalhamos no projeto contemplado – também um curta documental – há mais de dois anos, mas o Governo do Estado da Bahia contingenciou os recursos da Cultura e os desviou ninguém sabe para onde ou para quê. Uma encruzilhada das brabas. Aguardemos. Enquanto isso, vamos fazer um filme.

Um agradecimento especial a todos que colaboraram com o projeto “As Cruzes e os Credos”, acreditando na proposta e nos realizadores. Agora é mãos à obra!