o vaticínio do poeta: “vai haver repressão”

Em 2012, eu (fabricio ramos) e Camele Queiroz realizamos o “hera”, documentário que traz conversas com poetas baianos fundadores da revista “Hera”, publicação que marcou o cenário literário e cultural na Bahia.

Nesse trecho do filme, postado abaixo – Píluna n.5: trecho do doc “hera” – o poeta Antônio Brasileiro, fazendo referência à crise e aos protestos no mundo, vaticina em 2012: “vai haver repressão”.

Como diz Brasileiro, em outro trecho do filme, o poeta não atua na resistência porque “o poeta sempre está a frente”. Além de Brasileiro, participaram do documentário também os poetas baianos Juraci Dórea, Washington Queiroz, Wilson Pereira de Jesus, Roberval Pereyr e Uaçaí Lopes.


O documentário Hera está online na íntegra, em HD, no site do filme: http://hera.bahiadoc.com.br/

consumindo imagens ou sendo por elas consumidos?

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Susan Sontag

“Uma sociedade capitalista requer uma cultura com base em imagens. Precisa fornecer grande quantidade de entretenimento a fim de estimular o consumo e anestesiar as feridas de classe, de raça e de sexo. E precisa reunir uma quantidade ilimitada de informações para melhor explorar as reservas naturais, aumentar a produtividade, manter a ordem, fazer a guerra, dar empregos a burocratas. As faculdades geminadas da câmera, subjetivizar a realidade e objetificá-la, servem idealmente a essas necessidades e as reforçam. As câmeras definem a realidade de duas maneiras essenciais para o funcionamento de uma sociedade industrial avançada: como um espetáculo (para as massas) e como um objeto de vigilância (para os governantes). A produção de imagens também supre uma ideologia dominante. A mudança social é substituída por uma mudança em imagens. A liberdade de consumir uma pluralidade de imagens e de bens é equiparada à liberdade em si. O estreitamente da livre escolha política para liberar o consumo econômico requer a produção e o consumo ilimitados de imagens.”

Susan Sontag, em “Sobre Fotografia” (1977). No livro, Sontag diz que, nas sociedades industrializadas e consumistas, teremos “de suspender as certezas sobre o que é realidade e o que é imagem”.

hera: arte, política e poesia

“O capitalismo, antes de ser um problema econômico, é um problema psicológico.” – no breve trecho do documentário “hera” (2012), postado abaixo, Antonio Brasileiro, poeta fundador do grupo Hera, de Feira de Santana, manifesta visões de mundo sobre atuais contextos Políticos, que certamente influenciam o seu processo criativo, de caráter universalista. Antonio Brasileiro tem 24 livros publicados (O doc “hera” pode ser visto na íntegra em http://hera.bahiadoc.com.br/).


A assertiva de Brasileiro merece atenção, mesmo não sendo nova. Do ponto de vista amplamente social, sabemos que as nossas democracias de mercado não resolveram os problemas mais simples como a fome, a miséria, a degradação ambiental e a paz. Ao contrário, tais problemas se intensificam, inquestionavelmente.

Do ponto de vista individual (considerando a psique), a vida cujos valores e metas são propostos e regulados por ideias e tendências publicitariamente (e ideologicamente) fabricadas, consome grande quantidade de energia das pessoas, que comumente vivem uma vida com objetivos mesquinhos, garantindo satisfações frágeis e regulares. Isto, aliado à ideologia da valorização ética do trabalho, como disse Nietzsche – constitui “a melhor das polícias, pois subjuga cada um e se esmera em travar poderosamente o desenvolvimento da razão, dos desejos, do gosto pela independência” (trecho extraído da obra Aurora, 1881).

Realizar um documentário como o “hera” tem dessas: o escopo maior de registrar nossos encontros com poetas baianos por conta de suas ricas contribuições à arte e à literatura na Bahia, não privou o resultado de reflexões que transcendem o âmbito meramente estético e alcançam, sem nunca abandonar a estética, a dimensão política inerente a todo ser criativo. A arte, afinal, não deve estar a serviço de nada, mas deve – para sua força e expressão máxima – subjugar em si mesma, de diferentes formas, todas as dimensões humanas.

Quando pensamos em Política nos dias de hoje, infelizmente, subtraímos quase sempre toda a reflexão, a meditação, o sonho e mesmo as preocupações universalistas (que dão lugar a orientações individuais, localistas ou partidárias). Tudo isso compõem precisamente os principais efeitos da arte: Arte e Política, se quisermos, podem andar mais próximas do que pensam todos os puristas.

Por isso somos gratos aos poetas por terem topado construir conosco essa experiência documental: Antonio Brasileiro, Juraci Dórea, Washington Queiroz, Wilson Pereira de Jesus, Roberval Pereyr e Uaçaí Lopes. Além da reflexão política, claro, o filme traz poesia, amizades e conflitos, lembranças e provocações.

O doc “hera” é uma realização independente do Bahiadoc – arte documento, e está disponível online na íntegra. No sítio também há mais informações sobre o filme: http://hera.bahiadoc.com.br/.

o primeiro McDonalds na Praça Vermelha!

Este breve e histórico documento audiovisual percorre a enorme fila para apreciar o primeiro BigMac em Moscou em 1990:

A queda do muro de Berlim representou o símbolo do fracasso do comunismo autoriário como regime (embora não do socialismo enquanto ideal), mas somente a fila para comprar um sanduíche no McDonalds de Moscou pôde nos atirar à cara a dimensão simbólica da vitória do capitalismo – todo um século de desejos que adentra neste nosso século como um império calcado em caprichos e ilusões na medida da miopia de cada um nós. A abertura econômica da União Soviética permitiu o acesso ao que era proibido: o livre consumo de mercadorias-símbolos do capitalismo.

Em 1990, a Rússia comunista inaugurou a sua primeira loja da rede McDonalds, em plena Praça Vermelha! O desejo de experimentar pela primeira vez um BigMac era tão grande que as pessoas formaram uma imensa fila que dava voltas nos quarteirões, e esperavam mais de 8 horas para saborear o hambúrguer.

Como nos contou o astronauta russo do inesquecível filme espanhol Los Lunes al Sol (trailer) denunciando o fracasso dos ideais hegemônicos que dividiam o mundo:

Dois camaradas se encontram na Rússia depois da queda do comunismo:
– Tudo o que nos disseram sobre o comunismo, afinal, era mentira! – disse o primeiro, desiludido.

– Sim. Mas o pior é que tudo o que nos disseram sobre o capitalismo, afinal, era verdade! – retruca o segundo.