A PARTIR DE AGORA – As jornadas de junho no Brasil

Eu sou um dos participantes do filme de Carlos Pronzato, junto com diversas pessoas que vivenciaram nas ruas e nos debates livres as grandes manifestações de junho passado de 2013, em diferentes cidades do país. O conjunto das falas forma um panorama crítico diversificado, porém essencialmente sintonizado com os anseios mais fortes que predominaram e predominam nas manifestações no Brasil: vontade e luta por uma radicalização do sistema democrático que proporcione o protagonismo popular nas lutas e decisões Políticas.

Quanto à minha participação, em dado momento digo que “enfrentamos uma crise de representatividade”. Mas passei a refletir: enfrentamos, no âmbito político institucional, uma crise de representatividade ou de credibilidade? – talvez seja mais adequado falar em crise de credibilidade da política partidária junto à sociedade.

Atualmente, não há apenas motivos político-partidários, mas também razões vitais globais para se falar em transformação social ou em mutações da política. O que nos angustia é a desproporção abissal entre as competências da política e as exigências do real, afinal, todos sentem que o perigo cresce (social, ambiental, político)…

Não acho que o nosso momento político permita precipitações nem tagarelices, mas não deslegitimo os gritos de negação: “Não vai ter aumento” ou “Não vai ter Copa”. Num mundo mobilizado para o desastre, acredito mais em parar as cidades, desmobilizar as estruturas. Desmobilizar tudo o que está mobilizado.

Sobre o documentário:

“Realizado a partir de entrevistas com ativistas de cinco capitais brasileiras, o material não é apenas uma ferramenta para o debate e a compreensão das Jornadas de Junho, mas também um instrumento de organização da luta política, característica marcante da militância audiovisual de Carlos Pronzato, que também dirigiu, entre outros, “O Panelaço – a rebelião argentina” (2002) e “Carlos Marighella – Quem samba fica, quem não samba vai embora” (2011).”

Direção, roteiro e concepção: Carlos Pronzato
Direção de produção: Cristiane Paolinelli
Edição: Ricardo Gomes (Coletivo Das Lutas RJ)
Edição teasers e pesquisas de imagens adicionais: Richardson Pontone
Trilha: Apanhador Só
Realização: Lamestiza Audiovisual

Brasil, fevereiro de 2014.

Dandara é de Luta: ocupar é um dever

O filme Dandara: enquanto morar for um privilégio, ocupar é um direito, dirigido por Carlos Pronzato, nos apresenta a ocupação Dandara, em Belo Horizonte, narrando a história da comunidade marcada pela luta por moradia, mas cuja experiência de cinco anos ultrapassa esta luta, em si, fundamental: a vida dos moradores da ocupação, suas posturas, falas, trabalhos e ações, revela um emblemático e exitoso processo de criação de alternativas sociocomunitárias, de luta efetiva não só por direitos básicos, mas por uma nova concepção de cidade, de organização social e do que é viver.

Com o apoio efetivo das Brigadas Populares e de diversas entidades da sociedade civil que, ao longo de cinco anos, vêm reconhecendo a legitimidade tanto política quanto jurídica da ocupação, Dandara enfrentou a opressão policial desde o seu primeiro dia de ocupação e, depois, passou a lutar sem pausas pela atenção institucional do Poder Público, em várias esferas, que ignora (ou suprime) o direito constitucional da moradia em favor da indústria da especulação imobiliária. Em Belo Horizonte, inclusive, o déficit habitacional quase equivale ao número de imóveis desocupados, que jazem a serviço do interesse de especuladores.

A ocupação ainda não venceu a luta maior, que garantirá a regulamentação da comunidade, reconhecendo-a como um bairro da cidade. Mas a iniciativa é vitoriosa todos os dias quando vivencia no cotidiano a conquista de seus direitos. O êxito cotidiano da comunidade prova que, não havendo iniciativa por parte do Estado para garantir justiça social, é fundamental a ação dos movimentos sociais e a continuada organização popular.

Através da gente de Dandara e dos agentes que se mobilizam em torno da luta da comunidade, o filme de Carlos Pronzato mostra, com sensibilidade e perpassando questões amplas – o protagonismo feminino na história da ocupação, o racismo estrutural do país, a importância da solidariedade – que uma luta legítima organizada alcança, para além da resistência, uma existência digna, sempre em processo, sempre em luta. Vale ver o filme.

conversa com Carlos Pronzato: cinema, autonomia e autogestão

Como parte do projeto Canal Bahiadoc, gravamos uma conversa com Carlos Pronzato, realizador de muitos filmes cujas temáticas se relacionam estreitamente com as lutas sociais e os contextos políticos do Brasil e da Bahia, e também da América Latina, transitando entre o vídeoativismo e o documentário histórico e cultural, sempre a partir de um recorte de amplo olhar político. O cineasta comenta sobre as suas motivações, seus métodos, suas percepções políticas e sobre contextos do audiovisual na Bahia.

Subvertendo a lógica dominante de distribuição audiovisual (por necessidade e pela característica de seu trabalho), Pronzato alcança um público vasto, porém não catalogado apenas em salas de cinema (costuma ele mesmo vender seus filmes em DVD, além de, em várias ocasiões e lugares, encontrar ou tomar conhecimento da difusão de seus trabalhos). O seu cinema autogestionado, embora lhe traga, por um lado, diversas dificuldades estruturais, lhe possibilita, por outro, plena liberdade na escolha e abordagem de seus temas, além de tornar possível uma dinâmica de produção ágil e diferenciada.

Pronzato mantém o blog La mestiza Audiovisual, onde se pode conferir toda a produção do cineasta, com informações sobre cada filme e com orientações para aquisição de suas obras: http://lamestizaaudiovisual.blogspot.com.br/

No espaço do Canal Bahiadoc pode-se acessar os webdocs anteriores e saber mais sobre o projeto: www.bahiadoc.com.br/canalbahiadoc