“Muros” no DocAnt2015 que acontece em Buenos Aires

Nesta sexta, 4 de setembro, “Muros” será exibido em Buenos Aires pela 25º Muestra del Documental Antropológico y Social – DocAnt2015, a Mostra mais antiga de documentários na Argentina, que acontece nos dias 3, 4 e 5 de setembro no Museu Etnográfico “J. B. Ambrosetti”, com entrada livre e gratuita.

Com 25 anos de projeções contínuas e um catálogo de mais de 3.000 títulos, a DocAnt tornou-se um fórum de divulgação e consulta para o trabalho de cineastas, nacionais e internacionais, exibindo e debatendo filmes que não fazem parte do circuito habitual de projeções. Este ano, participam filmes vindos de: Espanha, Portugal, EUA, México, Paraguai, Índia, Bélgica, Itália, Alemanha, Japão, Paquistão, Bolívia, Brasil, Chile, Finlândia e Canadá. Haverá conversações com diretores, apresentações especiais, cursos e oficinas.

Captura de Tela 2015-09-03 às 10.24.29Organizadores: Departamento de Mídia audiovisuals- INAPL- (Instituto Nacional de Antropologia e Pensamento Latinoamericano [ver site]

Local: Museu Etnográfico “J. B. Ambrosetti “(Moreno 350- CABA)

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Filmes de alma (até para quem não curte o surf)

À primeira vista, os filmes documentais sobre surf podem parecer desinteressantes para quem não curte o esporte que é também estilo de vida e e visão de mundo, mas muito pelo contrário:

Fábio Fabuloso (2004)

Fábio Fabuloso [trailer], filme-cordel em forma de fábula, traz uma história de superação e um divertido retrato de Fabinho Fabuloso, um dos maiores surfistas brasileiros de todos os tempos, tudo com excelente trilha sonora. Direção de Pedro Cezar, Ricardo Bocão e Antônio Ricardo.

Blue Horizon (2004)

Blue Horizon [trailer] , interessantíssimo, acompanha durante dois anos dois dos maiores surfistas do mundo: Andy Irons, altamente competitivo, e Dave “Rasta” Rastovich, um freesurfer de alma que escolheu não competir. No mesmo mundo do surf, duas visões distintas de mundo e de vida. Dirigido pelo diretor de fotografia mais famoso do mundo surf, Jack McCoy.

The Heart & The Sea (2015)

Agora quero ver esse “The Heart & The Sea” (2015), do australiano Nathan Oldfield, que tem a participação do mesmo Dave Rastovich enre outros grandes nomes, e que, segundo a Fluir, oferece um olhar aprofundado sobre a íntima relação entre surfistas de alma e o oceano.

Reitero, indico esses filmes mesmo para quem não curte ou não pratica o surf. São filmes de alma.

um encontro inesperado com o sagrado e o mistério (prévia)

O resgate do tema de um curta universitário que o realizador gravara dez anos antes o coloca em busca do reencontro de uma história. Fazer o filme se torna um encontro inesperado com o sagrado e o mistério.

[vimeo https://vimeo.com/96148297 w=570&h=320]

Em 2003, fui pela primeira vez na vida num terreiro de candomblé: eu estava fazendo um filme sobre a repercussão das mortes, em dias imediatamente consecutivos daquele ano, de um conhecido Pai de Santo de Ilhéus, o Pai Pedro, e do Bispo emérito da cidade, Dom Valfredo Tepe. Fui a Igrejas e depois fui ao Terreiro de Odé, a casa de Pai Pedro, onde o babalorixá tinha sido assassinado. Cidade chocada. Terreiro de Luto, não pude entrar nem gravar nada. Era um vídeo universitário., de viés político: buscava evidenciar, a partir da repercussão das mortes do babalorixá e do Bispo, a marginalização do Candomblé frente a oficialidade dedicada à Igreja por parte dos poderes institucionais, imprensa, sociedade.

Dez anos se passaram. Em 2013, resolvemos retomar o tema e fazer um outro filme partindo do mesmo tema, já em outro contexto, passado o impacto inicial que a cidade sofreu com a perda de dois de seus ícones religiosos.

Eu e Mel resolvemos, então, levantar recursos para viajar de Salvador até Ilhéus. Iniciamos uma campanha de financiamento coletivo através da internet e conseguimos dinheiro para custear a viagem, e também apoio de amigos na forma de trabalho voluntário (Juliana Freire, produtora, viajou conosco) e de hospedagem solidária (a amiga Lú nos ofereceu todo o conforto). O cineasta Henrique Dantas emprestou equipamento de áudio, e a DIMAS – Diretoria de Audiovisual e Multimeios da Fundação Cultural da Bahia emprestou equipamento de iluminação, através do Núcleo de Apoio à Produção Independente.

Decidimos ir a Ilhéus sem pesquisa prévia, passar lá uma semana, câmera na mão, buscando reencontrar a história. Eis que a história esperava por nós. Lugares inesperados, improvisos, sentimentos: a busca do filme faz surgir novos acontecimentos, novas experiências. Filmar o curta “As Cruzes e os Credos” foi ir a um encontro inesperado, mas no fundo, secretamente esperado por cada um que participou desse encontro. Mas um filme é um filme, que fale por si.

A ideia do filme é provocar uma reflexão através de nossa própria experiência de fazer o filme. Uma reflexão que envolve as raízes de nossa cultura afroíndia, o compromisso dos adeptos com o Sagrado, e o lugar do cinema, ou de um certo cinema.

Nossos agradecimentos a todas e todos que confiaram na proposta e apoiaram direta ou indiretamente a realização do filme, que segue em processo. A prévia é uma amostra que sugere os caminhos do nosso trabalho.

Sinais de Cinza

Captura de Tela 2014-04-01 às 16.32.28Grato a Henrique Dantas pelo convite para assistir seu filme Sinais de Cinza – A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade, que passou ontem (seg, 31 de março) no cinema da Ufba. Um filme que documenta e homenageia um dos cineastas emblemáticos do Brasil, ali de Feira de Santana, do sertão, assassinado espiritualmente e destruído fisicamente pela ditadura, pelos militares, pelos civis que festejaram a violência do golpe e da tortura, pela natureza mesma do poder, que não mudou.

Henrique nos apresenta Olney São Paulo, sua história, sua obra, sua vida, sua morte, a vida de seus filmes, e “Sinais de Cinza” vai ficando ainda mais forte, e a homenagem não se cala diante do descaso de todos os lados que abandona a obra de Olney, que abandona uma dimensão fundamental da arte e do cinema – qual o poder que quer que algo mais poderoso desperte e se levante no tempo? – Só se for o NOSSO poder… Assim senti o filme de Henrique, o Sinais de Cinza: um filme instrutivo no sentido mais nobre da palavra, um filme homenagem que nos conta de Olney da única forma que seria legítimo falar dele: com coragem, ousadia, com o espírito da Arte que renova, afinal.

Gratidão Henrique, por nos revelar Olney assim, sem mistificações, em toda a sua grandeza criadora, humana, sertaneja, migrante. Gratidão Henrique, por nos chamar a atenção. Gratidão por seu filme.

A PARTIR DE AGORA – As jornadas de junho no Brasil

Eu sou um dos participantes do filme de Carlos Pronzato, junto com diversas pessoas que vivenciaram nas ruas e nos debates livres as grandes manifestações de junho passado de 2013, em diferentes cidades do país. O conjunto das falas forma um panorama crítico diversificado, porém essencialmente sintonizado com os anseios mais fortes que predominaram e predominam nas manifestações no Brasil: vontade e luta por uma radicalização do sistema democrático que proporcione o protagonismo popular nas lutas e decisões Políticas.

Quanto à minha participação, em dado momento digo que “enfrentamos uma crise de representatividade”. Mas passei a refletir: enfrentamos, no âmbito político institucional, uma crise de representatividade ou de credibilidade? – talvez seja mais adequado falar em crise de credibilidade da política partidária junto à sociedade.

Atualmente, não há apenas motivos político-partidários, mas também razões vitais globais para se falar em transformação social ou em mutações da política. O que nos angustia é a desproporção abissal entre as competências da política e as exigências do real, afinal, todos sentem que o perigo cresce (social, ambiental, político)…

Não acho que o nosso momento político permita precipitações nem tagarelices, mas não deslegitimo os gritos de negação: “Não vai ter aumento” ou “Não vai ter Copa”. Num mundo mobilizado para o desastre, acredito mais em parar as cidades, desmobilizar as estruturas. Desmobilizar tudo o que está mobilizado.

Sobre o documentário:

“Realizado a partir de entrevistas com ativistas de cinco capitais brasileiras, o material não é apenas uma ferramenta para o debate e a compreensão das Jornadas de Junho, mas também um instrumento de organização da luta política, característica marcante da militância audiovisual de Carlos Pronzato, que também dirigiu, entre outros, “O Panelaço – a rebelião argentina” (2002) e “Carlos Marighella – Quem samba fica, quem não samba vai embora” (2011).”

Direção, roteiro e concepção: Carlos Pronzato
Direção de produção: Cristiane Paolinelli
Edição: Ricardo Gomes (Coletivo Das Lutas RJ)
Edição teasers e pesquisas de imagens adicionais: Richardson Pontone
Trilha: Apanhador Só
Realização: Lamestiza Audiovisual

Brasil, fevereiro de 2014.

o vaticínio do poeta: “vai haver repressão”

Em 2012, eu (fabricio ramos) e Camele Queiroz realizamos o “hera”, documentário que traz conversas com poetas baianos fundadores da revista “Hera”, publicação que marcou o cenário literário e cultural na Bahia.

Nesse trecho do filme, postado abaixo – Píluna n.5: trecho do doc “hera” – o poeta Antônio Brasileiro, fazendo referência à crise e aos protestos no mundo, vaticina em 2012: “vai haver repressão”.

Como diz Brasileiro, em outro trecho do filme, o poeta não atua na resistência porque “o poeta sempre está a frente”. Além de Brasileiro, participaram do documentário também os poetas baianos Juraci Dórea, Washington Queiroz, Wilson Pereira de Jesus, Roberval Pereyr e Uaçaí Lopes.


O documentário Hera está online na íntegra, em HD, no site do filme: http://hera.bahiadoc.com.br/

Vladimir Herzog realizou o primeiro filme com som direto no Brasil

Marimbás, de Vladimir Herzog, foi o primeiro filme a utilizar som direto no Brasil.

Vladimir Herzog (1937-1975), assassinado nas dependências de um destacamento do Exército, realizou Marimbás em 1963, utilizando som direto. O filme é um curta sobre pobres que vivem da pesca, rodado no Posto 6, em Copacabana.

Aconteceu que, em 1962, o Itamaraty convidou Arne Sucksdorff para participar de um seminário de cinema com o patrocínio da UNESCO. Sucksdorff veio equipado com as maiores novidades tecnológicas da época, entre as quais o gravador Nagra. Vladimir Herzog, Arnaldo Jabor, Joaquim Pedro de Andrade e Eduardo Escorel foram alunos do curso. O primeiro filme a utilizar som direto no Brasil, claro, saiu desse curso ministrado por Sucksdorff, e coube a Vladimir o privilégio de usar, pela primeira vez, o mítico gravador Nagra.

Conversa com Henrique Dantas no sexto webdoc do Canal Bahiadoc

O sexto webdoc do Canal Bahiadoc é com Henrique Dantas, cineasta que tem realizado filmes que resgatam a nossa memória cultural, com potência artística, força crítica e amplitude política e cinematográfica. A conversa que gravamos reflete a personalidade inquieta do cineasta, que fala sobre cinema – o seu cinema, o cinema na Bahia, o cinema como arte e como política.

Henrique Dantas atua como diretor, roteirista e diretor de arte. Entre os seus principais trabalhos estão a direção e o roteiro do longa Filhos de João, O Admirável Mundo Novo Baiano, documentário que recebeu quatro Candangos no Festival de Brasília em 2009, entre os quais o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio do Júri Popular. Foi diretor de arte de vários curtas e dos longas Estranhos (2008) e Trampolim do Forte (2009). Também realiza trabalhos nos campos de videoarte, fotografia e videoclipe. O filme apresenta a trajetória do grupo musical Novos Baianos, mostrando uma retrospectiva do estilo de vida comunitário adotado pelos integrantes do grupo e comentando a marcante influência de João Gilberto na trajetória dos Novos Baianos, motivo do título do filme.

Ser Tão Cinzento, curta premiado no É Tudo Verdade e no Festival de Brasília em 2011, conta a história da perseguição política, por parte da Ditadura Militar no Brasil, contra Olney São Paulo, a quem Glauber Rocha chamava de “mártir do cinema brasileiro. A partir da projeção de Manhã Cinzenta (1969), uma das mais marcantes obras de Olney, nas paredes de uma construção em ruínas com elementos do cenário que remetem à tortura, o filme traz depoimentos de Orlando Senna, Silvio Tendler, José Carlos Avellar e Luis Paulino dos Santos, entre vários outros entrevistados, que falam sobre as filmagens de Manhã Cinzenta e sobre as circustâncias em que Olney foi perseguido, preso e torturado, vindo a falecer em 1978, vítima de um longo processo de abusos perpetrados pelo regime ditatorial civil/militar que vigorou por mais de 20 anos no Brasil.

Em 2013, Henrique finalizou Sinais de Cinza, A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade, filme que, de forma mais ampla, busca dar a dimensão da importância do cinema de Olney São Paulo, através dos depoimentos de Nelson Pereira dos Santos, Orlando Senna, José Carlos Avellar, Helena Inês, Edgar Moura, Edgard Navarro ,Tuna Espinheira, entre vários outros ícones brasileiros do cinema. Atualmente, Henrique Dantas trabalha no projeto provisoriamente chamado Galeria F, filme que narra vivências de presos políticos na Bahia nesses mesmos anos de chumbo da ditadura militar.

O vídeo é o sexto e último webdoc do projeto Canal Bahiadoc, que traz conversas com realizadores baianos. Os webdocs anteriores e mais informações sobre o projeto podem ser acessados no site: http://bahiadoc.com.br/canalbahiadoc

O escopo maior do projeto é contribuir de alguma forma para ampliar debates em torno do cenário do cinema feito na Bahia, abordando diversos aspectos, desde políticas públicas de fomento à produção à história e desenvolvimento do cinema feito por aqui.

O Canal Bahiadoc é realizado por fabricio ramos e camele queiroz, com o apoio do Fundo de Cultura da Bahia através de edital público.

Henrique Dantas participa do sexto webdoc do Canal Bahiadoc

Nos próximos dias, publicaremos o sexto webdoc do Canal Bahiadoc, desta vez com Henrique Dantas, cineasta que tem realizado filmes que resgatam a nossa memória cultural, com potência artística, força crítica e amplitude política e cinematográfica. – Do blog do Bahiadoc Arte Documento.

Captura de tela 2013-12-10 às 17.57.21

Henrique Dantas é inquieto e perspicaz – percebemos isso nos primeiros instantes da conversa que aconteceu em sua casa. Atua como diretor, roteirista e diretor de arte. Entre os seus principais trabalhos estão a direção e o roteiro do longa Filhos de João, O Admirável Mundo Novo Baiano, documentário que recebeu quatro Candangos no Festival de Brasília em 2009, entre os quais o Prêmio Especial do Júri e o Prêmio do Júri Popular. Foi diretor de arte de vários curtas e dos longas Estranhos (2008) e Trampolim do Forte (2009). Também realiza trabalhos nos campos de videoarte, fotografia e videoclipe.

Filhos de João levou 11 anos para ficar pronto, tempo que revela o quanto fazer cinema na Bahia (ou em qualquer região fora do eixo) exige compromisso e persistência, como enfatiza o próprio Henrique. O filme apresenta a trajetória do grupo musical Novos Baianos, mostrando uma retrospectiva do estilo de vida comunitário adotado pelos integrantes do grupo e comentando a marcante influência de João Gilberto na trajetória dos Novos Baianos, motivo do título do filme. O Admirável Mundo Novo Baiano perpassa toda a cultura urbana do underground baiano ao longo dos últimos quarenta anos.

Depois, Henrique passou a se dedicar ao resgate da importância do cineasta Olney São Paulo – a quem Glauber Rocha chamava de “mártir do cinema brasileiro” – no cenário do cinema e da política no Brasil, propondo reflexões críticas com sensibilidade estética e apropriações de diferentes linguagens artísticas em suas realizações.

Captura de Tela 2013-12-10 às 20.49.42Ser Tão Cinzento, curta premiado no É Tudo Verdade e no Festival de Brasília em 2011, conta a história da perseguição política contra Olney, por parte da Ditadura Militar. A partir da projeção de Manhã Cinzenta (1969), uma das mais marcantes obras de Olney, nas paredes de uma construção em ruínas com elementos do cenário que remetem à tortura, o filme traz depoimentos de Orlando Senna, Silvio Tendler, José Carlos Avellar e Luis Paulino dos Santos, entre vários outros entrevistados, que falam sobre as filmagens de Manhã Cinzenta e sobre as circustâncias em que Olney foi perseguido, preso e torturado, vindo a falecer em 1978, vítima de um longo processo de abusos perpetrados pelo regime ditatorial civil/militar que vigorou por mais de 20 anos no Brasil.

Em 2013, Henrique realiza Sinais de Cinza, A Peleja de Olney Contra o Dragão da Maldade, filme que, de forma mais ampla, busca dar a dimensão da importância do cinema de Olney São Paulo, através dos depoimentos de Nelson Pereira dos Santos, Orlando Senna, José Carlos Avellar, Helena Inês, Edgar Moura, Edgard Navarro ,Tuna Espinheira, entre vários outros ícones brasileiros do cinema. Sinais de Cinza percorre agora festivais, tendo participado do Festival do Rio e do Festival de Havana.

Atualmente, Henrique Dantas trabalha no projeto provisoriamente chamado Galeria F, filme que narra vivências de presos políticos na Bahia nesses mesmos anos de chumbo da ditadura militar.

Henrique fala com firmeza e ao mesmo tempo com serenidade. “Para falar de meu trabalho eu preciso falar de mim”, diz, revelando o pertencimento pleno que o conduz na escolha de seus temas e na realização de suas obras. A conversa que gravamos será publicada em breve, no sexto webdoc do Canal. Acompanhe as nossas redes no Facebook e Twitter.

sobre “Rouge Parole” – depois da Primavera, liberdade e impasse

O enfoque de Rouge Parole (2011) é os dias seguintes a revolução tunisiana, que derrubou o ditador Zine El Abidine Ben Ali, que ocupou o poder no país de 1987 a 2011, com o apoio do ocidente. A revolta da Tunísia desencadeou a Primavera Árabe, a onda revolucionária que se alastrou pelo Oriente Médio e norte da África em 2011. Destacam-se, em minha leitura do filme, dois aspectos que determinam a sua linha condutora: o discurso liberal da Liberdade e a imposição do impasse pós-revolta e queda do ditador: quê fazer? E agora?

Rouge Parole é verborrágico. Enfatiza o discurso da liberdade que impregna jovens e velhos, homens e mulheres, registrando o extravaso de um povo nos dias seguintes à conquista de uma liberdade de expressão cerceada durante 23 anos de regime autoritário. O filme suscita reflexões múltiplas que se sobrepõem em camadas diversas: o polêmico protagonismo, na revolução, das redes sociais (especialmente do Facebook e blogues), o conflito de gerações, o papel da imprensa, do jornalismo e dos dispositivos móveis como celulares (aparatos que alimentava na internet as redes de conteúdos), as disputas entre a ideia de laicidade do estado e as tradições religiosas islâmicas. São situações que se relacionam imediatamente com a liberdade recém conquistada e os novos espaços de disputas políticas em formação em novos contextos de pluralismo de ideias e orientações democráticas.

O impasse: o quê fazer do país na pós-revolução? No auge das revoltas que culminaram com a queda do regime, as diferenças culturais e regionais foram posta de lado, pelo menos em segundo plano, em favor de uma causa maior. Mas uma vez vitoriosos os anseios de mudança, aparecem as disputas: quê mudanças? Em quê direções? E sob o comando de que grupos, ideias, partidos ou movimentos? O que sentimos é que predomina, no filme, o ideário ocidental de liberdade democrática, embora – em dado momento do filme – dois tunisianos discutam: o que é mais fundamental e que deve vir primeiro: o pão ou a liberdade? a liberdade ou o pão?

Cinematograficamente, o diretor tunisiano Elyes Baccar – com o uso de câmeras leves e de alta performance – conseguiu aliar a reflexão política a uma experiência estética bastante estimulante. Obteve êxito em aproximações discretas das pessoas, explorando planos detalhes e alternando-os com planos abertos que descrevem situações e contextos relevantes para compreendermos que a África, com todas as suas particularidades, é também próxima de nós em suas contradições, anseios sociais e no cotidiano das lutas políticas. No final, depois das revoltas, pichações e inscrições revolucionárias são apagadas das paredes de prédios públicos de Tunis. A imagem sugere a questão: até que ponto as marcas de uma revolução podem ser apagadas? As imagens do próprio filme que registra esse apagamento simbólico dá conta de parte da resposta: as imagens ficam.

Rouge Parole tem sido considerado um dos principais documentários sobre a Revolução da Tunísia. Foi eleito um dos 12 melhores documentários de 2012 pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, além de ter recebido diversos prêmios, como o melhor documentário africano do AALA Milan 2012, entre outros.

Assisti o filme na a Mostra África Hoje que, de 26 de novembro a 1º de dezembro, acontece na Caixa Cultural, exibindo parte da produção africana contemporânea de documentários.