nota: Avi Mograbi e o documentário

Captura de tela 2013-04-22 às 21.12.05

“Vingue tudo, mas deixe um de meu olhos”, de Avi Mograbi

Perguntaram a Avi Mograbi a razão dele recorrer ao documentário, e não à ficção, para interpelar seu país, Israel, sobre a política dominante em relação aos palestinos. O cineasta respondeu, referindo-se ao seu filme Vingue tudo, mas deixe um de meus olhos (2005), mas indo além dele:

Não vejo interesse em recriar em ficção o que tenho à mão como realidade. No filme, há situações que eu não acreditaria ser capaz de imaginar sentado diante de uma folha branca. Em meus outros documentários, havia uma parte de ficção. Aliás, o projeto de intenção do filme compreendia sequências ficcionais. Mas decidi não incluí-las, porque o documentário era tão forte que bastava a si mesmo. Eu deixo o filme me guiar e não meu projeto guiar o filme.*

Uma breve definição da especificidade do método documental.

* Citado no livro documentário – um outro cinema, de Guy Gauthier, que extraiu a citação do sítio http://www.nord-palestine.org/

nota: a clássica oposição entre documentário e ficção

A história da teoria do cinema é rica em debates, alguns mais duráveis do que outros, alguns nunca resolvidos plenamente e, por vezes, alguns debates produtivos.

A clássica oposição entre documentário e ficção, embora atenuada em certos períodos ou contextos, é – talvez – uma das questões mais presentes na história desses debates, não obstante os olhares de lado sempre que ela ressurge.

A distinção documentário/ficção nunca pôde ser completamente afastada, sobretudo porque está ancorada nas práticas da imprensa, sobretudo televisiva. Mas, numa abordagem mais exigente, devemos submetê-la a uma crítica que busque distinções mais cautelosas, que implique as ambiguidades e os limites da noção de gênero, que atravanca também o que usualmente chamamos de ficção. O documentário, afinal, não é um gênero.

Introdutoriamente, cito Bill Nichols, autor internacionalmente reconhecido que estuda o campo do documentário, analisando questões que compreendem ética, definição, forma, conteúdo e política. Segundo ele, os documentários diferem, de maneira significativa, dos vários tipos de ficção principalmente porque:

Eles estão baseados em suposições diferentes sobre seus objetivos, envolvem um tipo de relação diferente entre o cineasta e o seu tema e inspiram expectativas diversas no público.

A partir daí, como disse Jean Renoir, “tudo o que se mexe sobre uma tela, é cinema”. Voltaremos continuadamente a essa discussão.

A imagem que ilustra o texto é do filme Filmefobia, dirigido por Kiko Goifman, e cujo ator principal é o conhecido estudioso de cinema Jean-Claude Bernardet, que interpreta Jean-Claude, um diretor em busca da imagem perfeita. O filme é um “falso documentário/ficção”.

A citação de Bill Nichols foi extraída do seu livro “Introdução ao Documentário”, da Papirus Editora, com tradução de Mônica Saddy Martins.

nota: a ficção é mais verdadeira que o real?

Michel Maffesoli

“Receptáculo dos sonhos, o cinema constitui o elo mágico por excelência, pois sua estrutura, como analisa com pertinência E. Morin, permite o jogo das sombras, dos sortilégio, da passividade, coisas que, como sabemos, são constitutivas da vida social. A sedução exercida por tal filme premiado ou por um outro dirigido para salas populares reside no fato de que ele oferece uma imagem precisa e perfeita do real, onde, segundo a expressão popular, a “ficção é mais verdadeira do que o real”.

“O cinema, obra de ficção, é o lugar preciso do desdobramento, nele é reinvestida essa potência mágica, alucinatória, quase patológica, esse desdobramento cuja forma mais completa é o sonho, e que permite essa “distância de si para si” (E. Morin).”

Trecho do capítulo quarto do livro “A Conquista do Presente”, de Michel Maffesoli.