Cinema, indústria, público e controle da cultura: nota a partir de Bernard Stiegler

Quando se fala em cinema, fala-se em indústria, sobretudo no seio das atuais discussões e ações das políticas públicas para o audiovisual e suas derivações (incluindo perversões). Em meio a avidez, artística e/ou mercantil, dos envolvidos, situa-se a arte e o público, digamos, consumidor.

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Bernard Stiegler

Bernard Stiegler se aproximou da Filosofia enquanto estava na cadeia, cumprindo pena por assalto à mão armada (para mim esse dado não é irrelevante). Em 2004, Stiegler escreveu que seu trabalho é lutar contra àqueles que opõem a “cultura” à indústria, defendendo que a industrialização não é a morte da cultura e que desindustrializar seria uma grande irresponsabilidade. “Cultura”, que ele escreve entre aspas, é “a vida do espírito”. O marketing, em nosso atual estágio hiperindustrializado (que alguns chamam de capitalismo cultural), condicionou a estética. “O que se caracteriza capitalismo cultural é um capitalismo que reside no controle sistemático da cultura propriamente dita – por intermédio das tecnologias de cálculo, operando de maneira convergente, como dizem os industriais, nos círculos da informática, das telecomuncações e do audiovisual” [grifo meu], diz Stiegler, e vaticina: o capitalismo hiperindustrial está à beira de uma grave crise.

Seguimos cada vez mais impacientes e apressados, nem sempre a ver filmes, mas quase sempre a consumí-los. O cinema, no discurso da economia criativa, é um uma commoditie a ser operada pelo capital. No discurso dos artistas, a responsabilidade prioritária – o desafio – é fazer com que a experiência do sensível seja possível para aqueles que o marketing condiciona.

Como vimos, Stiegler não fala contra a indústria, mas para a indústria. Cabe prestarmos atenção ao lugar do cinema no “sem futuro” que o filósofo descreve quando analisa, da perspectica da cultura, o esgotamento essencial inevitável da sociedade de consumo industrial:

“O modelo de desenvolvimento industrial, da forma como ele extraordinariamente se desdobrou durante os últimos quarenta anos em particular, é sem futuro, porque ele conduz à produção de uma frustração extraordinária das massas, e mesmo das hipermassas de revoltados – seja pelo voto de extrema-direita ou pelo voto sansão em geral, seja por comportamentos violentos de toda natureza, delinquência ordinária, violência de Estado, terrorismos diversos, autoviolência da autodestruição (toxicomanias, suicídios), etc. Quando há processos de revolta desse tipo, há sempre retorno do recalcado, isto é, muitas coisas que estavam ocultas retornam à superfície.”

Tais processos sintomáticos de revolta, de conflito ou de desvio existem em todo lugar, todos os dias. O cinema, aliás, a cultura, enfrenta um impasse.

– Stiegler escreveu isso em 2004, em “Reflexões (não)contemporâneas”, com tradução e organização de Maria Beatriz de Medeiros.

nota: a ficção é mais verdadeira que o real?

Michel Maffesoli

“Receptáculo dos sonhos, o cinema constitui o elo mágico por excelência, pois sua estrutura, como analisa com pertinência E. Morin, permite o jogo das sombras, dos sortilégio, da passividade, coisas que, como sabemos, são constitutivas da vida social. A sedução exercida por tal filme premiado ou por um outro dirigido para salas populares reside no fato de que ele oferece uma imagem precisa e perfeita do real, onde, segundo a expressão popular, a “ficção é mais verdadeira do que o real”.

“O cinema, obra de ficção, é o lugar preciso do desdobramento, nele é reinvestida essa potência mágica, alucinatória, quase patológica, esse desdobramento cuja forma mais completa é o sonho, e que permite essa “distância de si para si” (E. Morin).”

Trecho do capítulo quarto do livro “A Conquista do Presente”, de Michel Maffesoli.