O “caboclo” é mais inteligente do que os paternalistas…

Nota

Captura de tela 2013-10-15 às 09.42.33Nota de Glauber Rocha, de 1969:

Milagres é uma cidade aberta ao cinema. Entre o amor e o cangaço, Os fuzis, Tropici, O dragão da maldade contra o santo guerreiro foram filmados em Milagres. Roberto Farias, Eduardo Coutinho, Walter Lima Junior e Leon Hirszman irão este ano a Milagres para rodar quatro filmes. Milagres fica perto de Salvador, população pobre e esquecida…

Um jovem camponês se aproxima do fotógrafo de O dragão da maldade e diz, antes que ele faça a leitura da luz: “2,8 senhor. A esta hora se a ‘máquina’ está aqui e o sol lá embaixo, é 2,8. Eu já observei isso em outros filmes…”. A partir deste dia, o “caboclo” foi nomeado assistente de câmera. O “caboclo” é mais inteligente do que os paternalistas…

nota: a fotografia participante de Valdemar Lima

“A luz não é o elemento único da fotografia de um filme, porém representa sua base. Uma fotografia que se proponha ser participante, participante da realidade brasileira, tem de, como condição básica, absorver e exprimir nossa luz.”

Valdemar Lima [in: Em busca de uma fotografia participante].

Captura de tela 2013-04-23 às 21.25.57

o céu “estourado” da caatinga em Deus e o Diabo

Valdemar Lima dirigiu a fotografia de Deus e o Diabo na Terra do Sol,  experimentando, não sem duros enfrentamentos com certos farmacêuticos da gramática cinematográfica, a participação e integração total da fotografia no tema do filme, omitindo qualquer forma de beleza especificamente fotográfica.  Sobre a textura plástica de Deus e o Diabo, Glauber escreveu: “do ponto de vista artístico destaco Waldemar Lima como meu colaborador na criação plástica do filme. Usando a câmera na mão em quase todas as sequências, e dispensando a luz de rebatedores e refletores, assim como filtros, este jovem iluminador impôs um sentido ideológico em sua fotografia, despojando-a de efeitos vazios e carregando os tons na mais violenta dramaticidade.”

Para Valdemar, o fotógrafo cinematográfico deve ser participativo e, juntamente com o diretor do filme, compor uma fotografia levando em consideração a luz da região e do drama.

No campo documental, creio, a fotografia ocupa um lugar decisivo na construção das relações que determinam o filme: a luz é um testemunho.

nem toda lucidez é velha

Captura de tela 2013-04-16 às 00.50.18

“La hora de los hornos” del Grupo Cine Liberación, 1968.

Fanon instigou “La hora de los hornos” (Fernando Solanas), doc de intervenção que orientou a ação do cinema na América Latina. Dizem também (alguém o saberá melhor) que Glauber escreveu “A Estética da fome” sob o impacto da leitura do intelectual martinicano.

Há quem diga que o documentário brasileiro, já visto como o mais vigoroso da América Latina, tem “dificuldades de reencontrar o vigor de outrora”. Ora, precisamente em nosso momento de explosão liberal. Já não há identificação clara do inimigo. Já não há a busca por unidade (e não de consensos, obviamente), com referências de pensamento que em algum momento uniram, por exemplo, Solanas e Glauber através de expressões distintas, mas ligadas por uma certa visão do cinema?

Hora de recorrências? Talvez. Aliás, “nem toda lucidez é velha”.