O que é feito da política na internet pós-facebook?

Não seria a hora de revisar as tendências políticas em rede, tanto em suas pautas quanto em suas dinâmicas, e especialmente quanto às suas formas e plataformas?

Captura de Tela 2015-05-29 às 12.26.56Em meados dos anos 2000 até recentemente, englobando, entre outros casos, a lei SOPA, a lei Sinde, a SGAE, leis cujas imposições refletiram no Brasil principalmente através do Senador Azeredo, do PSDB-MG (Lei Azeredo) e do Governo Dilma que, em contraposição aos Governos Lula, instrumentalizou o MinC pondo-o à serviço do ECAD e dos interesses de lobbys como o MPAA. E as resistências: os impactantes vazamentos do WikiLeaks, a morte de Aaron Swartz criminalizado por seu afã heróico de difundir livremente o conhecimento humano, as denúncias de Snowden acerca da hipervigilância ilegal e criminosa do Estado, as campanhas contra as prisões dos criadores do Pirate Bay, Megaupload etc. Todas essas leis de controle e de proteção dos interesses de grupos privilegiados e lobbys econômicos industriais não lograram, até aqui, se efetivar (a questão da neutralidade da internet continua em debate, e a infraestrutura da internet é uma questão subvalorizada, mas crucial). Todas essas leis visavam a solapar o potencial de energia criativa inerente à humanidade, que brota nas bases, nos lastros, e que atua transversalmente nas múltiplas realidades culturais em diversos níveis: locais, regionais e globais, com consequências incertas e explosivas, assustadoras para qualquer poder constituído.

Ou seja, a Política acontecia numa escala global a partir de ações reais e virtuais locais, numa interseção tão poderosa quanto bastou, por exemplo, para barrar a SOPA, fazer eclodir a primavera árabe e as acampadas pelo mundo, e muito mais coisas em escalas e experiências diversificadas.

Mas o quê acontece agora?

Os desdobramentos do Podemos e da Syriza, respectivamente na Espanha e na Grécia (ambos os países em meio de graves crises econômicas), embora importantes, conduziram tais lutas ao afã de se institucionalizarem na forma de partidos para lograrem graus de efetividades políticas dentro do sistema político estabelecido, para de dentro dele realizarem mudanças estruturais possíveis. Em paralelo, a política passou a acontecer em níveis nacionais, dificultando as interseções visto que cada país enfrenta seus contextos políticos próprios, limitados por legislações específicas e por situações econômicas e culturais peculiares em cada país ou região. A ação Política libertária e contestatória se dissipou e a Ética e Atitude hacker deu lugar à dinâmica, predominantemente, institucional e fragmentada.

O Facebook, corporação privada, passou a ser o vetor principal de articulações diversas (para articular desde ocupações, até protestos e rolezinhos), ao mesmo tempo em que governos cujas estruturas de controle e de vigilância, na maioria das vezes ilegais e autoritárias, requisitam o Facebook como principal colaborador para cerceamento, vigilância e controle de ações políticas. No Brasil, perigosamente, a corporação Facebook participa de projeto de inclusão digital, fruto de parceria do Governo Federal com corporações do Vale do Silício.  [http://migre.me/q3RCV]

Não sei se estou enganado, pois não estou antenado com o mundo da tecnologia (não uso zapzap, por exemplo, nem sequer celular com conexão à internet). Mas a internet, gradualmente, nesses últimos anos, tem reduzido o seu papel como ambiente anárquico e potente para a efervescência de uma emergente subcultura cujos valores fundem anti-autoritarismo punk com fascínio pelas tecnologias informacionais de ponta, embasados numa Ética colaborativa de livre e irrestrito acesso a tudo o que é produzido na esfera do conhecimento e da cultura.

Ocorre-me (me corrijam se for o caso) que essa redução da potência política da internet enquanto ambiente anárquico, contestatório e política e tecnologicamente inovador coincide proporcionalmente com a escalada do Facebook como vetor de tagarelices políticas e concentrador de polarizações e filtramento de informações.

Alternativas há, como o Diáspora, mas não alcançaram ainda o patamar do face. Não seria a hora de revisar – efetivamente e em maior escala – as tendências políticas em rede, tanto em suas pautas quanto em suas dinâmicas, e especialmente quanto às suas formas e plataformas?

A arte de viver para as novas gerações

Minha fala na mesa “Fazer multidão, devir instituição”, no seminário QUEREMOS, apresentada no Rio de Janeiro, em 14/11/2014. Publicada primeiro no sítio da UniNômade.

Enquanto a esquerda, ou as esquerdas estão reconstruindo as suas identidades fragmentadas; as iniciativas autônomas e informais — não institucionalizadas ou institucionalizáveis em si mesmas — antecipam modelos do porvir e reimaginam pactos sociais: as novas instituições do comum em devir.

Captura de Tela 2014-11-29 às 12.33.12As competências da política frente às exigências do real

Há várias multidões na multidão, sabemos, e talvez o conceito de multidão traga em si uma crise, especialmente quando aplicado ao Brasil, e mais ainda ao Brasil de agora (um agora que se delineia do lulismo para cá), um país em explosão liberal (ideológica) cujo pacto social cristaliza, no verniz de nossa história, seus dilemas, inquietações e limites. Se as nossas estruturas institucionalizadas – sobretudo políticas – não correspondem adequadamente às exigências da multidão, a multidão não consegue modificá-las adequadamente em relação às suas variadas e múltiplas exigências: as últimas eleições presidenciais, tão conflituosas, revelam e refletem esse fracasso, tornando mais agudas e gritantes as contradições na esfera política institucionalizada. É sobre esse fracasso que reflito aqui, enfocando, contudo, sua extensão, o alcance de sua vitalidade (sobretudo nas ruas, nas jornadas de junho) e seus efeitos que constituem uma (bio)política com formas próprias.

Segundo Albert Camus, autor que me orienta nesse texto, “toda crise histórica termina pelas instituições”, e cá estamos, num ciclo de debates, tentando entender a crise (sempre atual) não tão distantes da esperança de que os anseios que ela engendra e reflete se sintetizem numa força comum cujo êxito seria alcançar algum grau de efetividade política no sistema dado, o quanto antes e com eficácia, força pensada nos extratos das classes produtoras de análises e pensamentos políticos.

Em outras palavras, crise é riscos, e instituições são formas de controlar os riscos, inclusive para realizá-los politicamente na história. O que vimos nas ruas no auge das jornadas de junho? Impotência e potência, coesão e difusão, sucesso e fracasso, coerência e contradição. – Junho foi a um só tempo – penso (e essas leituras são parcialmente sobrepostas): “ondas dionisíacas de catarse política” (alguém disse isso e eu concordo); dissidência e revolta como uma forma de embriaguez dos corpos nas ruas; e também um esforço multitudinário de construir (ou constituir, ainda que enquanto zonas temporárias e autônomas) novos espaços de disputas, existências e exigências políticas. Nessa última leitura predominaram, e resistem predominando, os anseios de novos sujeitos políticos (quase sempre desvinculados das práticas políticas clássicas), que buscam tecer novas tramas sociais, compor novos emaranhados de interações descentralizadas, não-hierárquicas, emergentes. São, antes de serem projetos, ímpetos coletivos que antecipam modelos do porvir e reimaginam pactos sociais. O real, que faz exigências, está, ao mesmo tempo, em disputa e em construção – e em desconstrução, portanto – é um real enquanto devir propriamente revolucionário.

Captura de Tela 2014-10-23 às 11.58.12Recorrendo ao campo de minhas vivências propiciadas pelo fazer cinema independente, relato uma situação ocorrida logo depois que recebi o convite para participar deste Colóquio. Nessas eleições houve, na Bahia e em vários estados, uma mobilização de apoio à Dilma que chamaram de “O Cinema baiano está com Dilma”. Quando eu vi, fiquei muitíssimo incomodado. Questionei, através de um grupo no Facebook, os riscos de tal declaração que eleva o “cinema baiano” à condição de sujeito eleitoral. Não seria melhor dizer “cineastas baianos com Dilma”, mostrando a lista de assinaturas? (lista que até rolou, e foram muitas assinaturas). Meu questionamento foi ignorado olimpicamente, mas em privado, algumas pessoas falaram comigo e disseram que essa “instituição” cinema baiano era passageira, que eu compreendesse o momento eleitoral delicado. Eu já tinha compreendido, é claro. Um grupo institucionalizou temporariamente o cinema para que o cinema assumisse a condição de sujeito capaz de tomar posição “contra o retrocesso” e/ou em defesa de si mesmo, supostamente. O cinema, vejam bem, não uma entidade, uma associação, não, mas o próprio cinema, ainda por cima, baiano.

Nem tudo pode ser ou precisa ser institucionalizado, portanto, para ser eficazmente político. Nem tudo que fazemos ou pensamos politicamente é institucionalizável, embora muitos ações derivadas possam servir ou se ligar a instituições (míticas, políticas, éticas etc). Compreendi a ação daqueles que se fizeram a voz do “cinema baiano”: neste momento, na esfera da Cultura institucional no Brasil, existe uma relação perigosa entre a força do mercado em crescimento (e do financiamento governamental dedicado ao cinema em crescimento) e a falta de capacidade de implementar políticas eficazes, que contem a nossa história e legitimem nossas expressões e manifestações simbólicas, que, também, aconteçam com a insubmissão formal ou política e com a autonomia inerente à criação. Então, se há riscos a correr, nem sempre os caminhos a serem seguidos se esclarecem por si mesmos quando se trata de contextos eleitorais do momento. O risco do devir instituição é passar a combater os riscos que não interessam. Esse foi só um exemplo.

Esse impasse no âmbito cultural (das demandas públicas institucionalizáveis que necessitam se atualizar in concreto), de certo modo, se relaciona com o do campo político, ou se dá no interior dele. Só que no campo já demarcado da cultura institucional, trata-se de lidar com o já organizado, inclusive com os mercados. No caso da política, essa prática que envolve também as instituições (inclusive as instituições em devir), reclama, meio que ciclicamente, um salto histórico. E se a aclamada crise de representatividade é marcada também pelo anseio da multidão por novas formas e métodos de participação política, é nessa crise mesmo que nós encontramos tanto as dificuldades quanto as possibilidades todas, e as dificuldades saltam às vistas frente às possibilidades, porque é o que nos enfrenta primeiro (mas isso não nos desanima nem um pouco, é claro). De todo modo, o momento é propício para um salto: hora de aproveitar o gradual descrédito das totalidades e o crescente abandono dos grandes relatos modernos.

Já que se trata da necessidade de um salto histórico no âmbito da política, no sentido de fazer acontecer aquelas novas tramas sociais frente às exigências dessas realidades em disputa e em transformação, o meu ponto é:

A gente deve olhar para o que se está organizando e se constituindo frente a nós mesmos, com a gente no meio, e às vezes até à revelia de nós (nós como agentes imbricados nesse afã de pensar e tecer novas tramas sociais e políticas); precisamos prestar atenção ao que se está organizando e constituindo agora nas escolas, nas favelas, nos shopping centers, nos escritórios, nas praias em dias de semana, nos terreiros de candomblé e de umbanda, na casa da esquina onde rolam encontros semanais de capoeira, ou festas improvisadas, em suma, em lugares onde quer que haja gente vivendo sob as condições impositivas do sistema, se virando para fazer acontecerem as suas tramas, demandas coletivas e ações. O sistema requer muito da vida dessas pessoas que fazem esses acontecimentos, mas por isso mesmo – como disse Deleuze – quando a vida é objeto do poder, ela passa a resistir ao poder. Esses acontecimentos são, ao mesmo tempo, resistência e vanguarda em devir biopolítico.

Captura de Tela 2014-11-29 às 12.36.50É desse movimento de acontecimentos clandestinos em relação ao que é politicamente instituído que surgem as organizações, e não de debates nem de ciclos de conferências – embora esses eventos sejam imprescindíveis para o pensamento, a avaliação, e mesmo para a organização de novas institucionalidades e forças políticas constituídas. Surgem as forças motoras transformadoras mais desses acontecimentos do que daqueles que aplicam jargões e práticas de linguagens políticas estabelecidas. Mas o que há, o que está em devir, é um amplo movimento clandestino que apenas se agita e que nem sempre é visível (quem previu os rolezinhos?). Claro que tais movimentos não estão instituídos no sentido organizacional definido, nem podemos prever ou calcular os seus impactos culturais e sociais em termos de organização política, justamente por essa clandestinidade difícil de historiar e de perceber porque não estão fazendo parte de certo barulho imediato, nem se apoiam em modelo algum de nossas estruturas políticas clássicas nem nos métodos comuns de caráter reivindicatório.

Claro que essa constituição clandestina do comum surge apoiada primeiro nas realidades mais concretas e nada clandestinas, como as demandas profissionais, as dificuldades da comunidade, da favela, ou do bairro, da escola, as lutas por terra e por moradia, por direitos básicos constituídos, mas se estende até às necessidades do sambão semanal na praia ou numa praça da periferia, do churrasco comunitário na praia, nas conversas durante o tempo “perdido” nos congestionamentos dentro de ônibus lotados, espaços, enfim, onde transparecem a existência das pessoas e de sua relação com o mundo e entre elas mesmas, da substância da vida cotidiana. Quando esses sujeitos se organizam por alguma razão, o fazem de forma viva, sem nenhum romantismo ou ideal. Para essas pessoas, a política deve ser submetida a essas realidades vividas, à vida mesma, e a seus interesses práticos. Hegel falou algo de uma “tecedura silenciosa do Espírito”, expressão que é abstrata aplicada aqui, não deve se restringir a isso que falo, mas serve de referência. E esses interesses práticos, em termos de devir, nunca vêm sozinhos, nunca é sem consequência política. (Cabe, todavia, esse parêntese: é evidente que esses movimentos clandestinos não substituem nem depõem contra os movimentos organizados em lutas efetivas (como MSTS, MST e outros) cujos impactos e resultados também nunca se resumem – nem se reduzem – às suas demandas formais).

Essa viva movimentação clandestina está acontecendo agora, em muitos lugares, sobretudo nas cidades e nas metrópoles. Muitos já a vivem, desde o campo micropolítico, até os campos estético, erótico etc. em iniciativas que são concomitantes e paralelas, mas nem sempre se complementam ou se encontram, porque ainda não são integradas nem definidas, tampouco são articuladas em torno de uma ideia institucionalizável em si mesma.

Mas essa movimentação clandestina é sobre poder. No âmbito da cultura, desde as ressignificações da cultura hip-hop e do grafite, até os bailes funk, os grupos de capoeira ou maracatu, as primeiras raves, os já mencionados rolezinhos, tudo isso é sobre poder: subvertem lógicas de ocupação dos espaços urbanos, de determinações simbólicas de classes, de códigos sociais de controle, de descentralização de poder (as raves, por exemplo, reivindicavam o lema punk contra estrelas do rock, baseando sua música trance na figura do DJ e no remix, subvertendo o estrelismo de um artista e a instituição da autoralidade – embora depois tenha também gerado suas próprias estrelas).

Em suma, enquanto a esquerda, ou as esquerdas, estão reconstruindo as suas identidades fragmentadas, as coisas estão efetivamente acontecendo. Tudo muito desarticulado, é verdade, mas tudo funciona junto, ainda que de uma forma não de todo conhecida, a ser desvendada, inventada, fortalecida processualmente. E sem olharmos para isso, esses acontecimentos vivos que transcendem as estruturas e os modelos clássicos, não podemos contribuir com organização nenhuma.

Perspectivas

Considero o termo esquerda aqui a partir do lema que a define de forma geral: “um outro mundo é possível”, acrescentando que esse outro mundo não deve ser mais só possível, porque é necessário e inevitável, diante das tendências de desastre do sistema, seja ambiental, social e/ou político.

A esquerda, tradicionalmente, sempre formula um ideal para os excluídos, os malditos do corpo social, os pobres, os miseráveis, despojados do mundo produtivo que agora implica também o mundo simbólico. É previsível que a esquerda, historicamente falando, também tenda a submeter o indivíduo (ao ideal) e dele fazer um sujeito, ou mesmo fazer da multidão um sujeito, no sentido amplo.

Assim, vamos considerar que algumas bases no anseio de transformação e empoderamento político una a multidão, por exemplo: submeter a Economia à Política. Que formulações de realidades emergentes ou não devem conduzir a organização das forças políticas? Vamos pensar ainda que a multidão em vias de organização aprove como ponto de partida a noção de política como uma Força que serve de antídoto contra a violência que é o capitalismo. Que práticas concretas devem surgir dessa noção? O que seria então esse mundo do comum baseado numa luta de tão amplas possibilidades? E ainda que encontremos um vetor de comunhão, os povos ou grupos, cada um, podem aplicá-lo de formas adaptadas às suas próprias condições e necessidades e mesmo visões de mundo. Por exemplo, o que une, pensando em políticas institucionais e ações concretas, os guarani-kaiowá e os favelados da maré ocupada militarmente? Os ribeirinhos do Madeira de Jirau e os quilombolas do Rio dos Macacos? Além, claro, dos diversificados e complexos estratos da classe média urbana? – de certa forma, a gente não mapeou tudo, mas vimos que isso – essa convergência – aconteceu em certo nível nas manifestações. Mas e nas possíveis instituições?

Faço um adendo: a crítica usual do capitalismo e de nossa história política, embora seja uma crítica imprescindível e tantas vezes acertada, pode subestimar problemas mais essenciais (e aí precisaríamos avaliar e recompor aquelas exigências do real). Agora, em meio a tantos protestos, ações políticas e análises intelectuais e acadêmicas, ninguém sabe direito quais são os meios de pelo menos coibir aquelas tendências de desastre do sistema. Digo isso porque a forma como nos enxergamos (como classes? Ou como espécie? Como etnia? Ou como indivíduo em sociedade?) é fator determinante, não só para a forma e objetivos das lutas, mas para a identificação ou eleição dos problemas mais profundos, mais essenciais, a serem colocados e enfrentados.

Então, Institucionalizar o quê e como? Não estou certo sobre se o caminho é um partido, embora, talvez, um partido precise acontecer. Há quem diga, por exemplo, que o Podemos espanhol é fichinha perto do nosso partido movimento dos anos 80, o PT, que deu no que tem dado – mas sabemos que há controvérsias nisso também, pois trata-se de contextos substancialmente diferentes em vários campos de lá para cá no tempo e no espaço.

Seria eficaz, a princípio, constituir um movimento de movimentos capaz de assegurar a continuidade das lutas das multidões (inclusive aquelas que se realizem através de partidos); movimento, portanto, cuja maior competência seria a capacidade de incorporar sempre as novas experiências continuamente produzidas pelas multidões, em todos os lugares, instituindo estruturas contra a burocratização e a centralização de poder, e impedindo que seus mecanismos de luta sejam utilizados para a subida ao poder de novas minorias. (Martin Bubber, em “Caminhos da Utopia”, põe em tese correntes do socialismo utópico ou libertário, fundamentando a proposta de subtrair da política, o mais possível, as “funções do dirigir”, que devem ser limitadas às exigências circunstanciais, para que a direção não se converta em dominação. Não à toa, Bubber, enquanto pensador, estava mais interessado nas relações entre as pessoas do que em soluções institucionais).

Movimentos que, enquanto poder constituinte, – e aí eu vejo a razão da institucionalização em vários níveis – possam pensar e realizar estratégias efetivas para se contrapor a políticas localizadas efetivamente impostas (ou em vias de imposição) pelo poder constituído, quando tais políticas desvirtuam das demandas do comum, da multidão. Ou seja, para o enfrentamento teórico e prático dos abusos e injustiças impostas pela violência do Poder. No mais é uma luta pela construção de um espírito comum que se orienta pelo aprofundamento e radicalização da democracia, e valoriza a autonomia e autodeterminação dos indivíduos, grupos e povos. Tudo isso em meio ao capitalismo e à mitificação da democracia, que se expressa na democracia de mercado oligárquica (J. Rancière) e se constitui no poder do estado republicano, expressão mesma da dominação de classes.

Captura de Tela 2014-11-29 às 12.40.01O papel social das pequenas insurreições ou de iniciativas cotidianas de resistência localizada atestam as possibilidades contínuas de sínteses transformadoras que escapam dos escatologismos históricos, ligando-se mais aos ciclos míticos. É tarefa de mobilização permanente que, em si mesma e por seus efeitos e caminhos, combate novas burocratizações enquanto força autônoma, temporária e ativa, cujos resultados são aquelas reimaginações de pactos sociais – nem sempre prescindindo de rebeliões, nem sempre aderindo à revoluções historicistas. É devir não determinado, nem determinista – devir multitudinário que, ao interpretar, perceber e agir sobre o real – produz realidades.

A tarefa das lutas é permanente, portanto. É tarefa de Sísifos, recorrendo à imagem de Camus. Ou, recorrendo ao imaginário afroíndio, é tarefa exusíaca, de Exu, orixá cujo nome iorubá se refere etimologicamente à Esfera, simbolizando movimento. Em tempo, Camus diz que devemos imaginar Sísifo feliz. Exu a gente sabe como é.

sobre “Rouge Parole” – depois da Primavera, liberdade e impasse

O enfoque de Rouge Parole (2011) é os dias seguintes a revolução tunisiana, que derrubou o ditador Zine El Abidine Ben Ali, que ocupou o poder no país de 1987 a 2011, com o apoio do ocidente. A revolta da Tunísia desencadeou a Primavera Árabe, a onda revolucionária que se alastrou pelo Oriente Médio e norte da África em 2011. Destacam-se, em minha leitura do filme, dois aspectos que determinam a sua linha condutora: o discurso liberal da Liberdade e a imposição do impasse pós-revolta e queda do ditador: quê fazer? E agora?

Rouge Parole é verborrágico. Enfatiza o discurso da liberdade que impregna jovens e velhos, homens e mulheres, registrando o extravaso de um povo nos dias seguintes à conquista de uma liberdade de expressão cerceada durante 23 anos de regime autoritário. O filme suscita reflexões múltiplas que se sobrepõem em camadas diversas: o polêmico protagonismo, na revolução, das redes sociais (especialmente do Facebook e blogues), o conflito de gerações, o papel da imprensa, do jornalismo e dos dispositivos móveis como celulares (aparatos que alimentava na internet as redes de conteúdos), as disputas entre a ideia de laicidade do estado e as tradições religiosas islâmicas. São situações que se relacionam imediatamente com a liberdade recém conquistada e os novos espaços de disputas políticas em formação em novos contextos de pluralismo de ideias e orientações democráticas.

O impasse: o quê fazer do país na pós-revolução? No auge das revoltas que culminaram com a queda do regime, as diferenças culturais e regionais foram posta de lado, pelo menos em segundo plano, em favor de uma causa maior. Mas uma vez vitoriosos os anseios de mudança, aparecem as disputas: quê mudanças? Em quê direções? E sob o comando de que grupos, ideias, partidos ou movimentos? O que sentimos é que predomina, no filme, o ideário ocidental de liberdade democrática, embora – em dado momento do filme – dois tunisianos discutam: o que é mais fundamental e que deve vir primeiro: o pão ou a liberdade? a liberdade ou o pão?

Cinematograficamente, o diretor tunisiano Elyes Baccar – com o uso de câmeras leves e de alta performance – conseguiu aliar a reflexão política a uma experiência estética bastante estimulante. Obteve êxito em aproximações discretas das pessoas, explorando planos detalhes e alternando-os com planos abertos que descrevem situações e contextos relevantes para compreendermos que a África, com todas as suas particularidades, é também próxima de nós em suas contradições, anseios sociais e no cotidiano das lutas políticas. No final, depois das revoltas, pichações e inscrições revolucionárias são apagadas das paredes de prédios públicos de Tunis. A imagem sugere a questão: até que ponto as marcas de uma revolução podem ser apagadas? As imagens do próprio filme que registra esse apagamento simbólico dá conta de parte da resposta: as imagens ficam.

Rouge Parole tem sido considerado um dos principais documentários sobre a Revolução da Tunísia. Foi eleito um dos 12 melhores documentários de 2012 pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, além de ter recebido diversos prêmios, como o melhor documentário africano do AALA Milan 2012, entre outros.

Assisti o filme na a Mostra África Hoje que, de 26 de novembro a 1º de dezembro, acontece na Caixa Cultural, exibindo parte da produção africana contemporânea de documentários.

Yoani Sánchez em Feira: as contradições vão além da Ilha

O documentário Conexão Cuba Honduras, de Dado Galvão, traz as participações de Raúl Castro, Eduardo Suplicy e, entre outros, da blogueira cubana Yoani Sánchez, dissidente do regime castrista. O filme – sobre liberdade de expressão e direitos humanos – seria exibido ontem, 18 de fevereiro, em Feira de Santana, Bahia, com as presenças de Galvão, cineasta, de Yoani e do senador Suplicy. A exibição, entretanto, foi cancelada devido aos protestos de militantes, em boa parte ligados ao PT e ao PCdoB. O Senador Suplicy pediu ao público que ‘esperasse Yoani ter o direito de se defender’, mas o evento se tornou inviável.

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O Senador Suplicy pediu ao público que ‘esperasse Yoani ter o direito de se defender’

Mesmo depois da recente lei migratória adotada em Cuba (maior flexibilidade para que cidadãos cubanos pudessem viajar ao exterior), Yoani teve negada pelo Governo a emissão de seu passaporte, tornando a “falta de liberdade” em Cuba um dos eixos da atividade crítica da blogueira.

Felippe Ramos (meu irmão, sociólogo, estuda integração latinoamericana, mora na Venezuela e esteve recentemente em Cuba), através de um rápido papo por email, resume: “é um tema complexo. (…) Yoani é fruto de um erro estratégico do regime cubano. Ela não é uma intelectual, não é líder política. (…) Ficou famosa pelo simples fato de querer sair de Cuba com direito a voltar, sem ser imigrante fugitiva. A negativa constante do regime, em tempos de internet, blogs e twitter, a fez ficar famosa”. E completa: “ela se tornou um símbolo de um ponto fraco do regime – a falta de liberdade. Claro que a mídia e grupos polítcos anti-Cuba iriam usar a imagem dela até a exaustão. Claro, também, que ela aceita de bom grado boa parte desses apoios”.

Pessoalmente, acho que os protestos são legítimos e necessários. Contudo, impossibilitar a projeção do filme revela um esvaziamento crítico por parte dos militantes que compromete a própria legitimidade da crítica à atuação da blogueira cubana. O filme deve ter uma resposta de seus críticos e de seu público em geral, sobretudo uma resposta política, mas não pode ser simplesmente impedido de ser exibido. Aliás, pesa contra Yoani Sánchez a acusação de receber e aceitar apoios de entidades escusas e de autoridades norte-americanas. Mas, afinal, entre as agremiações partidárias que participam do poder e das bases do Governo no Brasil, a acusação de receber “apoios espúrios” caberia também como autocrítica.

Em suma, a abertura paulatina do regime cubano, citando Felippe, “é uma necessidade de sobrevivência política e econômica do regime”, e não podemos simplificar as complexas contradições históricas, políticas e econômicas que tornaram Cuba um símbolo de dignidade social e humana, por um lado, e uma ditadura por outro.

Rogério Ferrari, guerrilheiro de imagens – Por Paulo Magalhães

Artigo de Paulo Andrade Magalhães*, publicado em O Olho da História, n.12.

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Zapatistas / Chiapas / EZLN / © Rogério Ferrari

“A minha loucura é a minha consciência e a minha consciência está aqui. No momento da verdade, na hora da decisão, na luta, mesmo na certeza da morte!”
(Paulo Martins, personagem do filme “Terra em Transe”, de Glauber Rocha)

“Sou sertanejo, sou nordestino, sou sem teto, sem terra, sou vaga-lume na cidade
grande, sou adolescente nas minas de carvão; sou África, Ásia e América Latina”. É desta
forma que Rogério Ferrari, considerado um dos mais interessantes fotógrafos engajados da atualidade, expressa a sua arte há quase duas décadas, documentando conflitos, culturas e as lutas concretas dos povos e dos movimentos sociais de várias partes do mundo. Nessa longa trajetória de registro de imagens, com a sua analógica Nikon F4, o artista autodidata, nascido em meados dos anos 60 na cidade baiana de Ipiaú, não pára de percorrer estradas, abrir caminhos e semear idéias. Publica livros e artigos, realiza palestras, oficinas e exposições como as que ocorreram recentemente em Paris sobre a opressão ao povo curdo na Turquia, que vislumbra a criação do seu território, referido como Curdistão, e sobre o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, na Bahia, do qual foi ativista enfrentando as forças da ordem num período de intensa agitação social.

Guevarista e glauberiano, vivendo em função da luta revolucionária, retrata a realidade dos envolvidos na perspectiva deles, sem retoques, maquiagens ou panfletagens, construindo um valioso acervo antropológico. Dentre as suas pesquisas anti-acadêmicas e de diversidade étnica e cultural, destacam-se, além das já mencionadas, a do movimento das Mães da Praça de Maio, na Argentina, em 1984; a Revolução Sandinista, na Nicarágua, em 1987; a queda do Muro de Berlim, na Alemanha, em 1989; a “Revolução de Veludo”, em Praga, Tchecoslováquia; a intervenção das Forças Armadas no Rio de Janeiro; a Crise dos Balseiros em Cuba, em 1994; o movimento de resistência indígena em Chiapas, alinhado ao Exército Zapatista de Libertação Nacional, no México em 1995/97; as Mulheres Maias, no México e na Guatemala, em 1997; a situação dos Palestinos nos territórios ocupados, em 2001; os mineiros da Bolívia ; os campos de refugiados palestinos no Líbano e na Jordânia, em 2008; a resistência do povo do Saara Ocidental, nos campos de refugiados na Argélia e nos territórios ocupados pelo Marrocos, em 2008; as feiras e ruínas das cidades maias e incas, no México, Guatemala, Equador e Peru; e os carnavais de Veneza, de Salvador e de Santiago de Cuba.

Para Ferrari, mais do que sofisticados equipamentos digitais, tão em voga, o que,
sobretudo importa é o envolvimento do olhar, o sentimento, a atitude politizada, a percepção da vida cotidiana e a capacidade de intervenção social. Ressalta a importância de se conjugar a ética com a estética, rejeitando veementemente os “fotógrafos de guerra”, que buscam o “espetáculo” das tragédias para satisfazer os interesses da indústria sensacionalista, mistificadora de meios e fins. Tem a compreensão de que o ato fotográfico não é simplesmente ver pelo visor e clicar, mas entregar-se absolutamente ao momento do registro e inserir-se no processo em que atua a fim de que não haja um fosso entre o fotógrafo e o objeto. Semelhante à turma do Cinema Novo, que viu o cinema como prática política, Ferrari encara a fotografia como prática-militante, um instrumento de denúncia e a sua forma de se posicionar diante do mundo, firmando um contradiscurso para desmistificar a barbárie capitalista que condena pessoas à situação de privação absoluta. “Que a arte assuma o lugar que lhe corresponde, para aquecer a rebeldia”, diz, pois acredita que as imagens real-perturbadoras suscitam a reflexão e o debate, uma tomada de consciência/posição diante dos fatos, manipulados, estigmatizados e espetacularizados pela força da mídia, “a conspiração do silêncio”, segundo ele.

Palestina / Palestinos / © Rogério Ferrari

Palestina / Palestinos / © Rogério Ferrari

Sob o argumento de que a fotografia tem a mesma eficácia ou até mais do que
certos estudos antropológicos textuais, chama atenção para o fato de que o grande desafio é justamente estabelecer uma ponte entre o discurso e a prática e que “o impulso deve ser para reinventar a vida, redescobrir-nos, e juntar as desesperanças e minorias para fazer-nos grandes”. Adverte-nos, entretanto, para reagirmos, não deixando que nos roubem a dignidade e a esperança, pois se manter passivo, conservando a estrutura vigente de poder, “significa morrer cotidianamente”. As suas críticas, centradas na temática da democracia burguesa teorizada pelos iluministas, apregoam a desobediência civil contra a lógica autocrática de poder do capital, pois somente “a rebeldia pode apontar algo novo e melhor, desde um acampamento dos Sem Terra, desde as comunidades Zapatistas no sul do México, dos Davis Palestinos combatendo com pedras os fuzis israelenses na Faixa de Gaza, desde qualquer lugar, vale a pena lutar, pois só a revolta é criadora de luz e essa luz insinua três caminhos: a poesia, a liberdade e o amor.” (FERRARI, 2000, p.2)

O polemista fotógrafo, que liderou greve dos jornalistas, em Salvador, e uma
geração de jovens na Rádio Comunitária, em Ipiaú, gerando um movimento político-cultural com uma utopia libertária e original, cursou Ciências Sociais na UFBA, dedicando-se à antropologia visual. Desde menino já era um inquieto agitador, escrevendo para o jornal “Rapatição” e “invadindo” a sessão da Câmara a fim de que os vereadores tombassem a fachada do antigo cinema da sua cidade, ameaçado de demolição. Quadro ascendente do Partido Comunista Brasileiro na Bahia dos anos 80, foi completar a sua formação na Alemanha Oriental, quando assistiu e registrou a queda do Muro de Berlim. No governo Sandinista da Nicarágua serviu ao país como voluntário, colhendo café. Solidarizou-se também com o povo cubano na colheita da cana-de-açúcar. No México, militou na educação com as comunidades indígenas zapatistas, nas montanhas do estado pobre de Chiapas, quando conheceu o enigmático sub-comandante Marcos, que se deixou ser fotografado por ele. Acabou virando protagonista de uma reportagem da TV Bandeirantes, que o anunciou como o único brasileiro presente no local do conflito. Expulso do país, resolveu aprofundar-se na problemática social, econômica, política e cultural latino-americana, com sua diversidade de povos originários, massacrados por genocídios, espoliados e com nexos que os unem. Assim, de motocicleta, percorreu a Guatemala, El Salvador, Nicarágua, Venezuela, Equador, Colômbia, Peru, Bolívia, Chile e Argentina. Salienta que o convívio com as culturas dos dominados reeducou-o para um novo olhar e prática política. Tece críticas aos partidos com métodos de ação esgotados, à esquerda rendida, que abriu mão do socialismo como horizonte teórico e político, e enaltece o Exército Zapatista de Libertação Nacional, “que não posterga para o futuro o companheirismo e a sinceridade necessária para vivermos sob valores de justiça e igualdade”. Para Ferrari “o rigor ético implica em não ceder diante das
contingências da política”. (FERRARI, 2006, pp.20-23)

Zapatistas / Chiapas / EZLN / © Rogério Ferrari

Zapatistas / Chiapas / EZLN / © Rogério Ferrari

Retornando ao Brasil, deu continuidade à sua militância social no MST-BA, quando
passou a desenvolver trabalhos de base e proferir palestras. Participou também de
ocupações e de despejos, em que o aparato repressivo do Estado combate os sem terra,
desprovidos de condições de sobrevivência, como estes fossem bandidos ou inimigos de
guerra. Na perspectiva de fornecer suporte para os movimentos em luta, produziu o vídeodocumentário “Terra e Liberdade”, a fim de aquecer as mobilizações do MST na cidade de Itagibá, durante a prisão de seus integrantes. Fundou ainda a revista “Atitude”, do qual foi redator e editor, conquistando uma legião de leitores, já que fugia das banalidades, do mercantilismo, do pensamento simplista e maniqueísta. Propunha converter o debate teórico na prática, estimulando novas possibilidades estéticas e a elevação do nível de consciência das pessoas.

Movimento Sem Terra / MST / © Rogério Ferrari

Movimento Sem Terra / MST / © Rogério Ferrari

Com a dissolução de “Atitude”, cuja trilogia traçou um painel para a compreensão do
subdesenvolvimento latino-americano, retornou à sua vida de itinerante embrenhando-se
nos territórios de conflitos na Palestina, ocupados por Israel. Lá constatou a lógica do 4º
exército do mundo massacrando o povo palestino destituído de direitos (sem pátria e
exército), espalhado em campos de refugiados sem infra-estrutura, escolas e hospitais,
numa situação humilhante. Por quatro meses residiu em casas de famílias em Ramalah,
Rafah, Jerusalém, Cisjordânia e Gaza, em quartos minúsculos com teto de zinco, sem esgoto e água potável, passando pelas mesmas privações que os moradores. Conviveu diariamente com inúmeros assassinatos praticados à luz do dia contra a população palestina, prisões, torturas e demolição de casas, crianças mutiladas ou sendo executadas com tiros certeiros na cabeça pelos soldados israelenses, por protestarem atirando pedras. Em contraposição a esta opressão, assistiu jovens oferecerem suas vidas em ações de martírio, como afirmação de dignidade. Freqüentou muitos funerais, solidarizando-se com o sofrimento das famílias; encontrou-se com o líder da OLP, Yasser Arafat e entrevistou o líder espiritual do grupo islâmico Hamas, xeque Ahmed Yassin. O mais importante, porém, foi ter produzido a radiografia de um povo que “não tem outra escolha a não ser resistir”, conforme as palavras de Mahmoud Darwish, e cujas imagens registradas se transformaram num valioso documento histórico intitulado de “A Eloqüência do Sangue”, livro lançado no Brasil e no exterior, acompanhado de debates. “Com a câmera e o coração na mão, pude conviver, sentir, me unir e dividir a dor e a esperança com os palestinos”, assinala o autor.

Palestina / Palestinos / © Rogério Ferrari

Palestina / Palestinos / © Rogério Ferrari

De fato, este mesmo sentimento foi partilhado com o povo curdo, na Turquia, que
também mantém uma identidade e luta pelo direito de existir, de obter a sua pátria. Por um bom período Ferrari permaneceu na cidade Diyarbakir (ou Amed, na língua curda)
levantando dados, colhendo depoimentos das famílias dos refugiados, dos prisioneiros ou guerrilheiros, registrando imagens, muitas vezes com a precariedade da luz do candeeiro ou das frestas das janelas, a fim de não levantar suspeitas e comprometer os curdos, permanentemente vigiados pela repressão turca. Basta dizer que, numa década, cerca de quatro mil vilarejos curdos foram destruídos com milhares de pessoas mortas, existindo atualmente mais de 12 mil curdos encarcerados. Enfrentando também a avassaladora ofensiva do governo de Marrocos que impede que o mundo saiba da situação do povo sahauri, do Saara Ocidental, com o seu território invadido e dispersos há mais de três décadas em campos de refugiados, Ferrari viajou para este país a fim de completar o trabalho iniciado nos campos de refugiados, no Saara Argelino, cujos ativistas organizados na Frente Popular para a Libertação de Saguia el Hamra e Rio de Oro (“Frente Polisário”), lutam pela independência do Saara Ocidental (sob o domínio marroquino), e o reconhecimento da República Árabe Sahauri Democrática.

Inconformado com a exploração de classe e a subjugação dos povos, Ferrari exalta a
possibilidade da criação de uma revista sul-americana e rejeita propostas de empregos
institucionais, para fazer da sua atividade uma trincheira de luta, uma guerrilha visual, “uma atitude explodindo numa ação comum, como sujeitos do nosso destino”, ressalta. Há de se observar, contudo, que a vida para este “Corisco” (anti-dogmático e que se expressa na sua práxis) não tem fronteiras, é uma grande aventura, e só faz sentido se for para lutar pelo socialismo: “Quem disse que tudo está perdido quando a coragem recusa a humilhação; quem disse que depois de tudo, de fracassos e resistências, o sonho e o desejo seriam só duas palavras sem barcos, sem mar, sem paixões e desespero?”. A propósito, seus passos são norteados pela formulação de Che de que “a vitória nossa ou a derrota de qualquer nação do mundo é derrota de todos”.

* Paulo Andrade Magalhães é Especialista em Ciência Política, advogado-militante do MST-BA e professor de História do Direito da Faculdade da Cidade, em Salvador.

Referências bibliográficas

FERRARI, Rogério. O círculo mágico é a janela aberta. In Revista Atitude, dez/2000, p.2.
_____. A eloqüência do sangue. Edição e produção do autor, Salvador, 2004.
_____. Curdos uma nação esquecida. Edição e produção do autor. Salvador, 2007.
_____. Zapatistas – a velocidade do sonho. Em parceria com ORTIZ, Pedro e BRIGE, Marco. Brasília, Entrelivros, Thesaurus, 2006.
_____. Palestine. Edição Passager Cladestin. França, 2008

hera: arte, política e poesia

“O capitalismo, antes de ser um problema econômico, é um problema psicológico.” – no breve trecho do documentário “hera” (2012), postado abaixo, Antonio Brasileiro, poeta fundador do grupo Hera, de Feira de Santana, manifesta visões de mundo sobre atuais contextos Políticos, que certamente influenciam o seu processo criativo, de caráter universalista. Antonio Brasileiro tem 24 livros publicados (O doc “hera” pode ser visto na íntegra em http://hera.bahiadoc.com.br/).


A assertiva de Brasileiro merece atenção, mesmo não sendo nova. Do ponto de vista amplamente social, sabemos que as nossas democracias de mercado não resolveram os problemas mais simples como a fome, a miséria, a degradação ambiental e a paz. Ao contrário, tais problemas se intensificam, inquestionavelmente.

Do ponto de vista individual (considerando a psique), a vida cujos valores e metas são propostos e regulados por ideias e tendências publicitariamente (e ideologicamente) fabricadas, consome grande quantidade de energia das pessoas, que comumente vivem uma vida com objetivos mesquinhos, garantindo satisfações frágeis e regulares. Isto, aliado à ideologia da valorização ética do trabalho, como disse Nietzsche – constitui “a melhor das polícias, pois subjuga cada um e se esmera em travar poderosamente o desenvolvimento da razão, dos desejos, do gosto pela independência” (trecho extraído da obra Aurora, 1881).

Realizar um documentário como o “hera” tem dessas: o escopo maior de registrar nossos encontros com poetas baianos por conta de suas ricas contribuições à arte e à literatura na Bahia, não privou o resultado de reflexões que transcendem o âmbito meramente estético e alcançam, sem nunca abandonar a estética, a dimensão política inerente a todo ser criativo. A arte, afinal, não deve estar a serviço de nada, mas deve – para sua força e expressão máxima – subjugar em si mesma, de diferentes formas, todas as dimensões humanas.

Quando pensamos em Política nos dias de hoje, infelizmente, subtraímos quase sempre toda a reflexão, a meditação, o sonho e mesmo as preocupações universalistas (que dão lugar a orientações individuais, localistas ou partidárias). Tudo isso compõem precisamente os principais efeitos da arte: Arte e Política, se quisermos, podem andar mais próximas do que pensam todos os puristas.

Por isso somos gratos aos poetas por terem topado construir conosco essa experiência documental: Antonio Brasileiro, Juraci Dórea, Washington Queiroz, Wilson Pereira de Jesus, Roberval Pereyr e Uaçaí Lopes. Além da reflexão política, claro, o filme traz poesia, amizades e conflitos, lembranças e provocações.

O doc “hera” é uma realização independente do Bahiadoc – arte documento, e está disponível online na íntegra. No sítio também há mais informações sobre o filme: http://hera.bahiadoc.com.br/.

Nota: Amantes Constantes (Les amants réguliers), de Philippe Garrel (França, 2005)

Les amants réguliers revela as relações de jovens com o amor, a arte e o anseio de liberdade, na França de 1969, no sterteur do emblemático maio de 68.

François (Louis Garrel) é um jovem poeta que, junto com os amigos todos ligados à militância política, à arte e ao ópio, se apaixona por Lilie (Chotilde Hesme), e vive com ela a experiência de existir em meio à paixão e a um futuro ameaçador que se anuncia na incerteza de se poder realizar revoluções íntimas e coletivas.

Não tão distante das complexas questões que dilaceram o pensamento da esquerda atual, um dos personagens mais ativos nas ruas pergunta “como é possível fazer uma revolução pelo proletariado, apesar do proletariado?” Os sindicatos parecem ter mais medo da revolução do que os patrões, e os próprios jovens militantes não sabem ao certo que mundo viria a nascer do anarquismo que tanto os atraía.

O diretor  Philippe Garrel lançou reflexões sobre o autoritarismo intrínseco de uma sociedade organizada e referenciada pelo Estado, agenciando as tensões entre o indivíduo e a sociedade, entre o histórico e o circunstancial, entre a vida mesma e a potência de viver. François, o jovem poeta, enfrenta um julgamento militar por ter se recusado a alistar-se no Exército. Em sua defesa, o advogado argumenta que “há outras maneiras de servir ao orgulho e à honra do país”, implorando aos militares que não matem um gênio criador, um possível grande poeta, antes mesmo de nascer. Um militar contrapõe dizendo que Baudelaire e Rimbaud deviam ter sido presos. Philippe Garrel polariza, nesse caso, entre o autoritário e o libertário, entre o poeta e o militar. Mas, para o bem da riqueza narrativa do filme, mobiliza – no todo – um teatro de palcos múltiplos.

As preocupações dos jovens companheiros aumentam quando Antoine, o burguês que em nome do ópio ajuda a sustentar a todos, decide ir embora para o Marrocos. Tudo começa a se fragmentar, e Lilie é capturada, por assim dizer, pela oportunidade de ir para a América… trabalhar. Aliás, o filme todo em preto e branco, e com um estilo de enquadramento que suprime espaços, sugere uma opressão constante (mais constante do que o amor). Tudo que nos jovens quase desesperados não pode ser assimilado pelos interesses do sistema, deve ser sufocado, solapado, ou arrancado à força, seja pela polícia ou pelo virtual medo do futuro.

Um filme de belezas constantes, mas severo em seu ritmo e em seu drama. Sob o risco de ter me deixado atingir no meio do coração, afirmo que Les amants réguliers anuncia melancolicamente, remetendo à acusação de Albert Camus, que o tempo da rebeldia passou e deu lugar ao tempo dos revolucionários. François, diante do fracasso vivo de seus anseios de liberdade e amor, dorme a sua derradeira “noite dos justos” – ele se deixa morrer.

André Liohn: um refugiado do Brasil

Imprescindível a participação de André Liohn no Roda Viva de 30 de abril de 2012: “sou um refugiado do Brasil”.

André, que ganhou o Robert Capa Gold Medal, um dos mais prestigiados prêmios de fotografia do mundo, nasceu em Botucatu e partiu mais tarde para a Europa, onde passou a atuar como fotógrafo de guerra, trabalhando como freelancer para diversos veículos e entidades não-governamentais.

Como vemos na entrevista, André mantém uma relação sobretudo Ética com a Fotografia, que no seu trabalho e na sua vida assume um papel de reflexão, de crítica social e política no sentido amplo, e de luta por transformação social profunda, sempre consciente de seus próprios limites.

O fotógrafo, para quem a  fotografia é uma mera desculpa para estar nos conflitos e documentá-los com fins Éticos, diz que no Brasil não há espaço para a fotografia documentária, que, além de uma pegada autoral, exige uma dinâmica processual de construção que implica em tempo e pertencimento aos assuntos abordados, diferente da fotografia de pauta.

Com a legitimadade de quem esteve presente em situações de conflitos em várias partes do mundo (entre outros países, Somália, Síria, Haiti e depois na Líbia, onde acompanhou a sangrenta sequência de enfrentamentos entre grupos antigovernistas e as forças do ex-ditador Muamar Kadafi), André tece críticas à aspectos de nossa sociedade, ao atual momento político e econômico no Brasil, e comenta a função do jornalismo e da informação num mundo de conflitos de diversos gêneros, carregado de imagens e espetacularizações.

Uma das melhores entrevistas que já vi no Roda Viva, com toda a serenidade, simplicidade e compromisso Ético e universal, com um sentido de transformação e reflexão sobre nós mesmos e sobre as sociedades que construímos a cada dia, a cada gesto, e nas quais vivemos.

[video] A política do cinema

Direção  l  Arthur Autran

A partir de depoimentos de profissionais e artistas ligados ao cinema, o filme contextualiza as políticas de Estado dedicadas ao cinema brasileiro desde a criação dos grandes estúdios nos anos 1950 até os contextos atuais.